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quarta-feira, 10 de outubro de 2018

As fontes e bicas do Parque Nacional da Tijuca.


O Parque Nacional do Rio de Janeiro foi criado através do Decreto N° 50.932, emitido pela Presidência da República em 6 de julho de 1961, com aproximadamente 3 200 ha. A diversidade natural, foi sem dúvidas um dos atributos importantes para tornar a área um Parque Nacional.  Além disso, a ocupação humana ao longo de quatro séculos disponibilizou uma herança histórico-cultural, que passou a ser reconhecida, no mesmo ano, como patrimônio a ser preservado, já que a Floresta da Tijuca acompanha a história da cidade do Rio de Janeiro desde o período colonial. Através do processo 762-T-1962, o parque foi tombamento no Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico na Inscrição nº 42, de 27 de abril de 1967, que o indica como área natural-cultural, como um todo, e lhe confere, por meio do instrumento legal do tombamento, o status de patrimônio protegido.

Em 2012, a Cidade do Rio de Janeiro passa a ter reconhecimento do valor da sua paisagem urbana como "Rio de Janeiro: Paisagens Cariocas entre a Montanha e o Mar", tendo recebido o título concedido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) de Paisagem Cultural, cujo área do Parque Nacional e seus elementos introduzidos como paisagem cultural foram também considerados.

Trata-se, portanto, de um patrimônio cultural, por sua história, ainda que seja uma floresta, com cascatas, jardins paisagísticos, rios, fontes, grutas e matas.

A Floresta da Tijuca foi reflorestada no século XIX após anos de desmatamento e plantio (principalmente de café). O reflorestamento foi uma iniciativa pioneira e a pessoa responsável pelo reflorestamento, apontada pelo Imperador Pedro II em 1861, foi o Major Gomes Archer, o primeiro administrador.

O segundo administrador, Barão Gastão d'Escragnolle continuou o replantio de 1874 a 1888, e criou espaços, como um parque para uso público, inserindo espécies exóticas, pontes, fontes, lagos e locais de lazer com auxílio do paisagista francês Augusto Glaziou. A obra do Barão pode ser admirada ainda hoje, nos resquícios de rocailles imitando pedra roliça, nas fontes, nos  mirantes e lagos que batizava com nomes de suas predileções literárias – caso da gruta “Paulo e Virgínia” e a do “Excelsior”, em homenagem a Bernardin do Saint Pierre e Longfellow, respectivamente – ou de familiares, como a Ponte da Baronesa, Cascata Gabriela (sua irmã) e a Vista do Almirante (homenagem ao avô, Almirante Beaurepaire).

No século XX, Raymundo Ottoni de Castro Maya, administrou a floresta de 1943 a 1946, fez ressurgir o parque, que havia ficado esquecido durante os primeiros anos da República. Em parceria com o arquiteto Vladimir Alves de Souza e com o paisagista Roberto Burle Marx, Castro Maia recuperou a floresta introduzindo obras de arte, edificações e recantos. Foram também implantados serviços e sanitários e restaurantes.

Esse levantamento se dedicará as fontes existentes, identificadas como do século XIX e as do século XX.

Apesar da pouca documentação, a pesquisa iconográfica se dedicou a identificar os elementos decorativos, a fim de resgatar a originalidade dessas fontes, atendendo ao tombamento de 1967.


As fontes século XIX

1   
           1.    Fonte Midosi

A história dessa fonte está ligada a residência do Major Manuel Gomes Archer no sitio Midosi ( local do restaurante “A Floresta”) antiga propriedade de Guilherme Midosi, cafeicultor, que ali residiu, até 1856, quando passaram suas terras para a Fazenda Imperial. 

Nessa pesquisa iconográfica foi possível identificar que a fonte possuía uma escultura neoclássica até os anos de 1960. Na segunda foto aparece a parede azulejada e saída direta da agua, o que permanece na foto de 1998. Em 2014 se verifica a inclusão de outro elemento, uma cara de leão de cimento.

  Anos de 1940 durante a gestão de Castro Maya
 Anos de 1960 – s/identificação

 



2.  Fonte do Vaso na Cascatinha

As fotos dos anos de 1940, permite a hipótese que essa fonte se encontrava em outro local diferente, pois não há possível visão do céu atrás da fonte, bem como o apoio foi modificado. A situação atual que pode ser constatada na segunda foto, com um painel de azulejos e  torres laterais. 

  Anos de 1940 


 

3.    Fonte da Medusa

Foi instalada inicialmente no trecho da curva em frente a da Vista Chinesa, a peça foi transferida para uma murada construída, provavelmente nos anos de 1940, junto com o guarda corpo de proteção do monumento. 

 Cartão postal s/data

 


4. Fonte do Humaitá ( perto da gruta Paula e Virginia )

A primeira foto apresenta uma escultura neoclássica sobre o pedestal, nos anos de 1940, com uma rosácea e tubo para o jorro da água. Seguindo a hipótese que essa fonte é anterior a gestão do Gestor Castro Maia, a instalação da bacia de mármore foi a inclusão executada por esse gestor, como todas as outras criadas por ele. A foto atual apresenta a fonte sem a escultura e a rosácea, contudo ocorreu a inclusão de outro elemento, uma cara de leão de cimento. 

 


5. Fonte da Hípica

A fonte é uma das mais simplórias, unica no setor da Floresta sem a bacia de mármore, incluída no período de Castro Maya. 

 




As fontes século XX

I.  Na Floresta da Tijuca

De acordo com a matéria publicada por Castro Maya - Prestação de Contas, Administração - no Diário de Notícias de 14 de setembro de 1947, “ foram construídas pontilhões, fontes, muralhas de sustentação e colocados inúmeros bueiros”.

As banheiras de mármore que foram introduzidas no Parque,  são de origem desconhecidas até hoje, porém diversas fontes de água, foram montadas a partir dessas peças e pode-se observar pelo de estado de conservação que se encontram atualmente, que provável a instalação, tem cerca de 50 anos de exposição.

Outra característica para identificar as fontes como desse período, foram o conjunto de fontes e bancos revestidos de azulejos ou cacos, ora com motivos florais ora por motivos geométricos em azul, que pode ter sido fabricada no Brasil ou mesmo ser portuguesa. 



       1. Fonte dos Azulejos

Pequena construção, que a partir de uma calha, direciona a água do riacho. Toda revestida por cacos de azulejos, é o destaque num recanto criado por uma pequena murada de blocos de pedra.

 


2.Fonte abaixo da Ponte Job de Alcântara

Fonte composta por um mural recortado, revestida com azulejos florais com destaque ao peixe estilizado em porcelana pintada. A água é recolhida através de uma banheira de mármore de Carrara com a figura de dois sátiros na sua frente.

 



3.  Fonte jardim da Capela Mayrink

Fonte composta por um mural recortado, revestida com cacos de azulejos com destaque a figura estilizado em argamassa. A água é recolhida através de uma banheira de mármore de Carrara com a figura de dois sátiros na sua frente.

 


4.   Fonte do Largo do Bom Retiro

Fonte composta por um mural recortado, revestida com azulejos decorados, diferente da anterior,  com destaque a figura estilizado. Essa fonte tem linhas  semelhantes a existente no jardim da capela Mayrink.

 


5. Fonte do largo da Cascatinha

Fonte composta por um mural de pedra, onde está instalado um painel de azulejaria com o mapa da Floresta, e uma banheira de mármore.  A água jorrava diretamente na banheira sem nenhum elemento decorativo. Recentemente foi inserida uma “ cara de leão” de cimento.

 



 6. Fonte do Lago das Fadas 

 Fonte composta por um mural revestido por seixos rolados e uma coluna revestida ao redor com azulejos com uma pia redonda de mármore.  Possuía originariamente um dragão alado em bronze de onde vertia água. O Lago das Fadas, nome dado por Escragnolle, tem paisagismo original de Glaziou, no antigo charco. Foi represado e restaurado pelo arquiteto Vladimir Alves de Souza, durante a gestão de Castro Maya. 

 



      7.  Fonte Wallace

Fonte criada a pedido do filantropo inglês Richard Wallace, de autoria de Auguste Lebourg, para fornecer água ao povo francês. Proveniente das Fundições Val d’Osne, essa fonte é uma das peças mais difundidas em todo o mundo, sendo que a cidade do Rio de Janeiro, conta com três exemplares.  Trata-se de uma peça em ferro fundido ornada por quatro cariátides que representam a bondade, a simplicidade, a caridade e a sobriedade e sustentam uma cúpula ornamentada com escamas de dragão, terminando numa ponteira. A água que sai do interior da cúpula e cai numa pequena bacia colocada aos pés das cariátides.

As Fontes Wallace chegaram ao Brasil através do Prefeito Pereira Passos, em 1906. Há relatos da presença dessas fontes no Passeio Público, na Ilha do Governador, na Avenida Rio Branco (no pátio interno da Caixa Econômica Federal no Centro do Rio); e no  bairro de Santa Cruz. No Jornal do Brasil de 8 de março de 1977, cita que na gestão de Castro Maya o Jardim dos Manacas foi recuperado e instalada a Fonte Wallace, talvez a transferida da Caixa Econômica.

Na Floresta da Tijuca o registro dos anos de 1940, permiti verificar a pintura da vestimenta das cariátides, para evidenciar as figuras.


 




II.   Na Estrada da Castorina

As fontes instaladas na Estrada da Castorina, apresentam características semelhantes, isto é, foram construídas com blocos de granito, com bicas sem elementos decorativos, e uma bacia para esgotamento.
No jornal “Diário de Notícias” em janeiro de 1938,  na gestão do Diretor Geral de Viação e Obras Públicas, Sr. Edson Passos, noticia a construção de um vasto plano na localidade conhecida como Mesa do Imperador, como um terraço para turistas fazerem refeições e admirar a cidade. Nessa época desaparece o caramanchão rustico, sobre uma mesa de madeira, instalado por Pereira Passos e aparece uma fonte em frente a mesa.


 
Revista da Semana 1906


1.    Fonte do Imperador

Fonte composta por mural com uma bica e uma bacia. Confeccionada em pequenos blocos de pedra de granito na murada de contenção do local .

   2001


1    2. Fonte das Duas Bicas

Fonte composta por um reservatório, um mural com duas bicas e uma bacia. Confeccionada em blocos de pedra de granito em cantaria, formando um recanto no caminho do riacho.




 3.   Fonte das Três Bicas

Com dimensão superior a anterior, a fonte é composta por um reservatório, um mural com três bicas e uma bacia, semelhante a anterior.

 


1   3. Fonte de Pedra I

Fonte composta por mural com uma bica e uma bacia. Confeccionada em blocos de pedra de granito no caminho do riacho.



4.    Fonte de Pedra II

Fonte de conjunto semelhante a anterior contudo com blocos pequenos de pedra. 





  Fontes construídas depois de 1967 ( Tombamento)

Na pesquisa se verificou que os anos de 1970, a conservação do parque esteve deficiente, com inúmeras matérias em jornais sobre o descaso e desgaste dos recantos e monumentos do Parque.  No Jornal do Brasil de 18 de dezembro de 1980, anuncia a reabertura da Floresta da Tijuca, com a substituição do portão do Museu do Açude, a restauração da Capela Mayrink e da Fonte Wallace, a reforma dos sanitários públicos, a pintura dos gradis, a limpeza dos lagos, o asfaltamento das vias principais, a construção de churrasqueiras, a instalação de bancos e bicas.

Esses serviços foram promovidos pela fábrica Souza Cruz, numa parceria com o  IBDF ( Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal). Provavelmente esse período foram construídas as fontes abaixo, caracterizadas por utilização de azulejos comerciais da época, tentando uma reprodução das fontes do período de Castro Maya, um salvo histórico para o parque.


1  1.   Fonte próxima a Mesa do Imperador



1  2. Fonte do Lago do Açude


                                           


1  3.   Fonte da Gruta Paulo e Virginia



4. Fonte do Recanto dos Pintores










quinta-feira, 8 de março de 2018

A história do Parque Recanto dos Trovadores, o antigo Jardim Zoológico.


O início da história do parque Recanto dos Trovadores, é aqui marcada pelo dia  8 de agosto de 1885, quando  João Batista Viana Drummond, o Barão de Drummond, apresentou na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro a lista de subscrição para criação da Companhia Jardim Zoológico.

Esta petição, datada de 25 de agosto de 1884, foi a primeira consulta de Drummond à Câmara com o objetivo de abrir o jardim zoológico. O comendador pedia privilégio de 30 anos para o seu parque e isenção de impostos por um prazo não determinado.

O projeto do jardim zoológico foi elaborado pelo arquiteto José Magalhães, que acompanhou a execução da obra. A infraestrutura, o abastecimento de agua, coube ao Sr. Eanes de Souza.  As plantas e especificações das construções dos restaurantes, e abrigo dos animais foram apresentadas na loja na Rua Visconde de Santa Isabel, esquina com a Rua Barão do Bom Retiro e as propostas dos construtores foram entregues na Rua do Rosário, 98 até 7 de julho de 1886.

Em 29 de março de 1886, a Diretoria da Cia. do Jardim Zoológico, através do seu presidente Carlos Affonso comunicou à Câmara que as obras internas e externas seriam brevemente iniciadas
Em 1 de junho de 1888 o Jardim Zoológico foi inaugurado. Tinha uma área de cerca de 250.000 metros quadrados com diversas construções.

A Revista de Engenharia de 1888 descreve o local ” No Jardim Zoológico, que pelas disposições de suas ruas e alamedas, pelas multiplicidades de lagos, repuxos, pontes, chalés e bosques, tão agradável impressão sente o visitante, e tem a população desta corte um sitio onde passar algumas horas entretidas e alegres”.

 A exposição dos animais era o grande atrativo e desde a sua instalação recebeu inúmeras doações de animais. O Consul da Rússia, o Comendador Franklin Alves ofereceu um Urso; uma Onça Jaguatirica foi ofertada pelo Sr. Joxkey Alfredo Foon; uma Anhinga, ave aquática, pelo Major Luiz Augusto Coelho de Castro; uma Jiboia pelo Sr. Albibo de Faria; um Lagarto pelo Sr. Luz Ferreira da Mora brito, além da Companhia que fez inúmeras aquisições como uma Onça Preta ( em 1890) e um Elefante ( em 1889).

 
 Anúncio da inauguração - Gazeta de Notícias, 4 de junho de 1888


O ingresso ao jardim zoológico incluía um guia impresso para orientação do visitante com o título "Jardim Zoológico e de Aclimação de Vila Isabel” (em 1890). Importante iniciativa foi realizada pelo Sr. Xavier de Brito, gerente e encarregado da classificação cientifica.


Após o término do regime imperial, em 15 de novembro de 1889, o jardim zoológico de Vila Isabel perdeu a preciosa ajuda financeira que recebia do imperador D. Pedro II, que era amigo de João Batista Viana Drummond. Para sobrevivência do parque a direção do zoológico, idealizou um jogo para mantê-lo funcionando. Os animais eram representados por números e cada ingresso do parque dava o direito de um bilhete para concorrer a prêmios. O jogo se popularizou, recebendo o nome de “jogo do bicho”. 

Ingresso no parque com o animal correspondente.

Em abril de 1895 o Conselho Municipal aprovou o projeto do Prefeito Franklin Furtado de rescindir o contrato com o Barão de Drummond para a conservação do Jardim de Zoológico, com o objeto também de acabar com o jogo de bicho, o que desde então é considerado uma contravenção.

Desde a inauguração a visita aos animais e almoços no restaurante do Jardim Zoológico atraiam visitantes e grupos, além de encontros políticos e sociais, contudo não eram capazes de manter os animais e a manutenção do parque.

  Visitas aos animais - Revista da Semana,  1910

Evento político, Revista O Malho, 1910


Como alternativa para atrair mais visitantes, a companhia passou a realizar inúmeros eventos no parque, passeios musicais,  festas beneficentes, jogos de futebol, apresentações circenses, passeios ciclísticos, que faziam muito sucesso na cidade, garantindo até meados dos anos de 1930 uma boa frequência e a manutenção dos animais e do parque.

 Anúncio dos eventos – Correio da Manhã, 12/10/ 1910

Anúncio dos eventos - Revista da Semana, 12/1928

Festa – Revista da Semana, 31/12/1905

Jogo de futebol - Revista Fonfon, 1913

Jogo de Futebol - Revisto O Malho, 1917

Corrida ciclística - Gazeta de Notícias, 27/03/1910

 Corridas – Revista Caretas, 1910  


  Apresentação de ginastas -O Malho, 1911

 Festa beneficente -  Revista da Semana,  14/08/ 1926 

 Festa beneficente - O Malho, 1924

Despedida do zoológico -  Diário da Noite, 3/10/1940

A partir do final dos anos de 1920 começou a decadência do Jardim Zoológico. Os proprietários em 1929 fizeram apelo ao governo para manter a subvenção de 10 contos de reis anuais da prefeitura, concedida desde o governo monárquico.  Relatavam que as despesas de alimentação de 6 contos de reis mensais e de 5 contos para o pagamento de 25 homens perfazendo uma despesa de 11 contos mensais o que impedia a administração os outros itens necessários a conservação. Nos jornais da época os anúncios para visitação ao Jardim Zoológico e as atrações especiais passaram a ter constante divulgação.

 Anúncio - Gazeta de Notícias, 1929

No início do ano de 1940, o Jornal  Diário da Noite apresenta a notícia “Como está morrendo o Velho Jardim Zoológico”, relata que a alimentação dos animais chegava a 120 kg por dia, atualmente está reduzida a 30 kg.  Expõe na matéria que os animais foram vendidos ou estavam morrendo e que os existentes serão adquiridos pela Prefeitura. A maioria das jaulas estavam vazias.

 
Despedida do zoológico -  Diário da Noite, 3/10/1940

No dia 1 de outubro de 1940 o Ministério da Agricultura adquiriu o terreno do antigo Jardim Zoológico. A compra foi realizada no valor de 3200 contos de reis.

Finalmente no dia 12 de outubro de 1940 o portão foi definitivamente fechado.

Três anos depois em março de 1943, o Ministério da Agricultura vendeu o terreno para a Prefeitura do Distrito Federal, para a criação de um parque público.

A ausência do antigo Jardim Zoológico, era sentida na cidade, as notícias chamavam a atenção do Distrito Federal não contar com essa atração tão querida pelas crianças.

Cinco anos após o encerramento das atividades em 18 de março de 1945, o prefeito Henrique Dodsworth, inaugurou um novo zoológico na Quinta da Boa Vista, com cerca de 100 aves e 40 mamíferos entre eles chimpanzés, búfalos, capivaras, jacutinga e guará.

 Inauguração do Jardim Zoológico Municipal -  Jornal Beira Mar, 18/03/1945

Por outro lado, o antigo zoológico permanecia abandonado. Em 1953 a água estagnada do lago, o mato, os mosquitos e lama era a notícia no jornal Última hora, esclarecia também que o parque  só estava protegido pela presença de um zelador.

 Abandono do antigo jardim zoológico, árvore caída e lixo na entrada do parque – Jornal Ùltima Hora, 1953

Em 30 de novembro de 1957 o antigo Jardim Zoológico, foi transformado em logradouro público, após ter parte do seu terreno doado a Organização das Pioneiras Sociais, pela Lei Municipal 895 sancionada em 12 de setembro de 1957, para a instalação do centro de pesquisas do câncer.

Todo perímetro, de cerca de 400 metros, foi cercada pelo Departamento de Parques e Jardins com os gradis provenientes do Campo de Santana e recuperados os seus jardins. Foi criado um viveiro de plantas e instalado um espaço para play-ground, conforme diretrizes do Diretor do Departamento de Parques, o arquiteto Mauro Ribeiro Viegas.

Inauguração - Correio da Manhã, de 1/12/ 1957


 O Parque Recanto dos Trovadores, foi denominado e reconhecido oficialmente como logradouro publico pelo decreto 13 771 de 03.01. 1958, com a denominação de Parque Viveiro de Vila Isabel. De acordo com o processo 07/200.399/67 do Departamento de Parques e Jardins, que deu origem ao Decreto 1456 de 12.10.1967, o Parque Viveiro de Vila Isabel, passou a denominar-se Parque Recanto dos Trovadores.

No ano do 4º centenário da Cidade, surge do Chefe da Comissão de Colaboração do IV Centenário da Embaixada do Japão, Sr. Iawse Takshi, a proposta de criação de um jardim japonês na cidade, cujo local definido em conjunto com a prefeitura foi o Parque Recanto dos Trovadores.

Após inúmeros adiamentos, finalmente em 29 de abril de 1966, foi inaugurado pelo embaixador do Japão Kelchi Tatsuke , o  jardim japonês. Foi construído pela colônia nissei e doado aos cariocas como homenagem ao 4º centenário, fazendo esse evento parte das comemorações do transcurso do aniversário do Imperador Hirohito.

Para a construção do jardim a comissão contou com a elaboração do paisagista Jorge Tetsu Akimoto. 

 Marco da Inauguração - Jornal do Comércio, 1966

Em 1969 o Departamento de Parques e Jardins implantou no parque a Escola de Jardinagem, a terceira da América Latina, com a construção de uma sede composta por salas, laboratório e viveiros.
Outra iniciativa promovida pelo Departamento de Parques e Jardins foi a solicitação à Divisão de Patrimônio Histórico do Estado, do tombamento de toda a área do antigo Jardim Zoológico, concretizada no ano seguinte pelo decreto 03/300.247/70.

A intenção era de tomar medidas acauteladoras para manter o parque, a área livre e elementos construtivos primitivos, já que o mesmo havia reduzido em quase 50% da área inicial. Há relatos que a área do antigo jardim zoológico ia desde a encosta do Morro da Bandeira até a parte superior do Morro do Macaco.

Em 1972 o parque foi reformado com serviços que incluíram a limpeza do lago, a recuperação do jardim japonês e dos brinquedos. No final dos anos de 1970 e inicio de 1980, o parque foi muito utilizado pela população, apesar das dificuldades de manutenção do lago.  Havia guardas privados circulando no parque e o funcionamento da Escola de Jardinagem atraia muitos visitantes, além de crianças e idosos. No final dos anos de 1980, o parque novamente se encontrava degradado.

Frequentadores no parque - Jornal do Brasil, 5 /09/1979

Notícia do parque - O Globo,  13/08/1991

No ano de 1991 o parque recebeu uma reforma, sendo inaugurado oficialmente em 10 de agosto de 1992. Foi realizado o replantio de arbustos, a reformulação dos canteiros, construído um campo de futebol e duas quadras polivalentes e instalados aparelhos de ginastica. A borda do lago foi cercada por muretas, e construída escadarias, divididas em  patamares  que acompanham os desníveis do terreno.

Novamente no final dos anos de 1990, o Parque retorna à atenção da imprensa devido a falta de conservação. O lago volta a ser manchete com lixo e água estagnada, afastando os frequentadores. 

Em fevereiro de 2003 surgiu outra proposta para o parque, a construção de uma Vila Olímpica. Com o projeto aprovado a obra ficou parada, sendo que em 2007 estava concluído um campo de grama sintética, uma quadra de cimento e vestiário, permanecendo o restante do projeto a ser implantado. Em 2009 projeto “A Nave do Conhecimento” exigiu aprovação do órgão de tombamento (INEPAC – Instituto Estadual de Patrimônio Cultural), o que não foi autorizado.

Em dezembro de 2011, a Vila Olímpica Artur da Távola foi inaugurada com a construção de duas piscinas, uma delas com dimensões oficiais, uma quadra polivalente, dois campos de futebol society, pista de skate e uma pista de atletismo. Do Parque  foram recuperados o lago, a ponte de ferro e os brinquedos infantis.

 Pista de atletismo e quadra Jorna Extra,  2011

  Novas brinquedos infantis - Jornal Extra, 2011

 Novos brinquedos infantis - Jornal Extra, 2011

 Recuperação do lago - Jornal Extra, 2011



Elementos decorativos do Parque Recanto dos Trovadores.

Apesar das poucas informações sobre as construções e do paisagismo original do parque, por ter sido esse uma propriedade privada ( 1888 - 1940),  essa pesquisa histórica  irá destacar os elementos decorativos  remanescentes a fim de resgatar sua historiografia.

 Exemplo de Construção - Revista da Semana,  28/07/1901


1     1.  Portão

O acesso ao antigo Jardim Zoológico provavelmente era possível somente por um portão principal, com um acesso único central para pedestres. Duas construções tipo chalet permitiam a venda dos ingressos nos guichês. Aparentemente de ferro, bem decorado, tinha a identificação “Jardim Zoológico” em uma chapa de ferro.


Em 1940, quando do fechamento definitivo, uma foto expõe o mesmo portão de acesso, contudo coma moldura de identificação alterada por outra bem mais simples, vazada, somente com as letras;  J e Z.  É possível verificar com algumas alterações do chalé com uma grande abertura para a rua. 


Portão de entrada - Revista da semana, 1929

 
 Portão de entrada - Revista da semana, 1940                                            Detalhe - Jornal Última hora, 1953

Não há muitas informações do parque do período de 1940 a 1953 quando o espaço passou a ser uma propriedade da prefeitura, mas em 1957 quando o mesmo é aberto para a população o gradil do Campo de Santana foi ali instalado.

Em 29 de maio de 1961, o jornal Última Hora descreve que os muros do parque se encontravam em ruínas, que o portão original de ferro havia desaparecido pelas mãos de criminosos e que o local havia se transformado em um deposito de lixo.


Portanto, o portão que atualmente existe no parque não é o original. Alguns elementos se assemelham ao do Campo de Santana, contudo faltam peças decorativas e o requinte no acabamento das Fundições Val d’Osne.
 Foto do blog “Literatura e Rio de Janeiro”, abril de 2013.                       Portão do Campo de Santana, 2012


1    2.  Gradil


O gradil que circunda o parque, além do Tombamento Estadual de 1967 é um dos bens do patrimônio municipal desde o ano de 2000, por ser este da Coleção das Fundições Val d’Osne, da Companhia Barborat . Original do Campo de Santana de 1888, foi retirado daquele parque nos anos de 1940 e instalado no Recanto dos Travadores em  1957, no conjunto de obras  da época. 

 Cercamento do parque – Diário de Noticias, 2/08/1957

 Nas descrições dos serviços realizados nas várias reformas que o parque recebeu, não foi encontrada nessa pesquisa, nenhuma restauração do gradil de ferro fundido, contudo é possível constatar a recuperação com materiais diferentes do original.

 Detalhe do gradil, 2013


1     3. Lago

Criado na construção do Jardim Zoológico, o lago sinuoso é um elemento de linha romântica ainda presente do jardim do final do século XIX. A ilhota no centro do lago, os  rocailles em diversos trechos e na pequena cascata são resquícios preservados até hoje.

A falta da limpeza constante do lago, com a remoção de folhas e detritos, permite que esse material se acumulam ao longo do tempo, estagnando a água, prejudicando a presença de vegetação aquática, peixes e aves. Ao longo dessa pesquisa se constatou que as limpezas foram realizadas em caráter de emergência, seguida por longos períodos sem água, impedindo o aproveitamento pelos visitantes.

 Lago principal - Revista da semana, 02/1907

 Cartão postal - http://suburbiosdorio.blogspot.com.br, 2012

O lago é composto por uma pequena cascata de rocaille, barreiras para formar pequenas cascatas no seu percurso, que acompanham o desnível do terreno do parque.  Pode ser dividido em dois trechos, o primeiro com paredes de pedras sobrepostas e pequenas pedras artificiais e o segundo com borda de concreto armado e jardineiras para plantas aquáticas , provavelmente executada na reforma de 1991/92.

 1º trecho – cascata de rocaille, 2005

 1º trecho – paredes de pedra sobrepostas, 2005

 1º trecho – barreira cascata, 2005

 1º trecho – vista geral, 2005

 2º trecho, paredes de concreto, 2005

 2º trecho, vista geral, 2013

 2º trecho, plantas aquáticas, 2013


1     4.  Ponte

Outro elemento típico do jardim romântico é a ponte com guarda corpo imitando tronco de arvores. Na pesquisa realizada uma foto foi encontrada, que confirma a hipótese de que existiu no parque, porem não  há informações do período do seu desaparecimento.

Guarda corpo da ponte sobre o lago direcionando a ilha central - Revista da Semana,  23/07/1901

No levantamento planimétrico do parque realizado pela empresa Engic Ltda, de outubro de 1981, apresenta uma ponte sobre o lago no centro do parque, para a circulação dos frequentadores.



O primeiro registro fotográfico encontrado é do ano de 1993, provavelmente após a reforma de 1991/92.  Não foi encontrado nenhum registro do guarda corpo da década dos anos de 1960, quando o parque foi tombado pelo INEPAC, cabendo um aprofundamento na pesquisa.

  Guarda corpo - Jornal do Brasil, 21/01/ 1993

 Trecho sem Guarda corpo, 2002

 Guarda corpo, 2011


1     5.  Lanterna Japonesa - Jardim Japonês

O jardim japonês, inaugurado em 1966, foi durante anos foi um dos principais atrativos do parque pelo interesse de se conhecer o paisagismo oriental.  O espaço era composto por uma pequena cascata, um lago ornamentado com vitorias regias e carpas, oito lanternas japonesas e um caminho de pedras sobre o lago. O jardim era cuidado por três japoneses: Hisano Hamantura, Schu Oto e Ktsu Okimoto. Na matéria do jornal O Globo de 6 de abril de 1966, há o relato da dificuldade das plantas japonesas, em se adaptar ao parque, em decorrência da diferença do solo e clima.

Em 1967 o projeto paisagístico original apresentava alterações. No maior trecho foram plantadas “pelo de urso” e “margaridão”. Entre as flores brasileiras foram escolhidas os “mutsu”, o pinheiro; “Tubuzzi, as azaleias; “tzubako, as camélias; “take”, os bambus e uma “Sacura, a cerejeira.

 Lanterna Japonesa - O Globo, 09/1967

Lago e pedras - O Globo, 6/04/1966

 Lago e pedras - Correio da Manhã, 1972

 Em 1982, o Professor Baldino França do Departamento de Parques e Jardins relatou ao jornal O Globo, que sentia as perdas do parque “ Desapareceram arvores como mulungus, pajuras, paus brasil, cassias siamias remanescente do antigo Jardim Zoológico, além de 7 lanternas que existiam no jardim japonês, restando somente uma, além dos gansos que viviam no lago”.


 Lanterna Japonesa,  1994

O levantamento planimétrico de outubro de 1981, apresenta um pequeno lago, onde provavelmente estava situada o Jardim japonês, que na reforma 1991/92 foi aterrado e teve removido os elementos decorativos restantes (uma lanterna, o marco de inauguração e uma pedra de inscrição), para uma área acima do parque e instaladas aleatoriamente, descaracterizando a configuração original do jardim japonês.




 Peças  do Jardim Japonês, 1994

 Provavelmente a Lanterna Japonesa da Avenida Edson Passos faz parte desse conjunto.  A peça em pedra, foi encontrada em 1994 no depósito da Fundação Parques e Jardins no Caju.  Foi transferida para o deposito da Gerencia de Monumentos e Chafarizes em 2004, permanecendo até 2014, quando foi instalada em área pública.  


  Lanterna, 2016

Parte de outra lanterna, se encontra no depósito do Parque Noronha Santos, recolhida desde 1993 sem  registro da composição.

 Lanterna, 2018



1     6. Bacia do Elefante


Resquício do Antigo Jardim Zoológico a Bacia do Elefante é outro elemento a ser preservado. Em argamassa pintada, era provavelmente um chafariz, devido as peças hidráulicas que ainda restam.

Curioso que os antigos frequentadores do parque a reconhecem como a “Bacia do Elefante”, mas a matéria do Jornal O Globo de 7 de agosto de 1971, apresenta o seguinte texto: “Um homem que há 41 anos é responsável por sua limpeza garante que alguns estragos nos brinquedos e nas plantas são feitos por frequentadores......Mas o chafariz, construído quando o parque ainda era zoológico, para servir de bebedouro às girafas, está com a fonte desligada, cheio de lixo e água poluída”.

 Bacia, 1994


O Parque Recantos  dos Trovadores é um jardim histórico portanto as ações para sua preservação devem promover a restauração  da arborização, dos jardins, dos elementos decorativos e implementar atividades afins.