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terça-feira, 30 de setembro de 2014

Azevedo Neto, o paisagista da Cidade

Ao completar 100 anos no mês passado (Agosto/2014), o bairro do Grajaú ganhou de presente a transformação de parte de suas ruas em Área de Proteção do Ambiente Cultural (APAC). A medida protege as características arquitetônicas e paisagísticas da área delimitada, além de promover o tombamento de ícones do bairro como a Igreja Nossa Senhora Perpétuo Socorro, a Capelinha da rua Grajaú, a Escola Municipal Duque de Caxias, o Batalhão do Corpo de Bombeiros da rua Marechal Jofre e a Praça Edmundo Rego. 

Este post trata da Praça, ou melhor, do paisagista que projetou a Praça Edmundo Rego e muitas outras áreas de lazer importantes em nossa Cidade entre os anos de 1930 a 1950.

José da Silva Azevedo Neto nasceu no Rio de Janeiro, 22 de agosto de 1908. Arquiteto e urbanista, era funcionário público   por quase duas décadas (1936 a 1950), da então Diretoria de Trabalhos, Matas e Jardins hoje Fundação Parques e Jardins. Nesta instituição projetou as mais importantes praças da época e grandes áreas verdes da cidade, como o Jardim de Alah, as Praças Saens Peña, Antero de Quental, Cardeal Arcoverde e Edmundo Rego, entre outras.


Boa parte de seus projetos já não guardam mais traçados ou elementos originais em virtude de sucessivas intervenções, efetuadas sem que houvesse o devido cuidado com características hoje reconhecidas e valorizadas pelos órgãos de preservação do patrimônio histórico cultural carioca.

Azevedo Neto faleceu em 1962 e, em 2006, por ocasião da realização da II Mostra Internacional Rio Arquitetura-MIRA, a Prefeitura do Rio, por meio da Fundação Parques e Jardins,  juntamente com o Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB/RJ) promoveram a exposição "Memória do Paisagismo Carioca - Arquiteto Azevedo Neto 1930/1950. 
A mostra teve como curadora Claudia Brack, além de Júlio Cherém e Ronaldo Benevello arquitetos da FPJ, responsáveis pela pesquisa nos arquivos municipais e pelo resgate, junto à família do paisagista de projetos,além das plantas dos arquivos da FPJ e outros documentos que retratam a obra de Azevedo Neto e as transformações que a Cidade sofreu na primeira metade do século XX.

Neste post, algumas plantas e fotos encontradas na internet nos conduzem através do tempo pela cidade e algumas das obras mais significativas do paisagista.  A começar pela Praça Edmundo Rego.

Praça Edmundo Rego, Grajaú

Um dos primeiros projetos de Azevedo Neto, a praça foi inaugurada em fevereiro de 1935, no centro do bairro do Grajaú. De contorno circular, praça contava com um coreto central, dois chafarizes circulares e dois pergolados de concreto, com cinco pilares de cada lado.


inauguração da praça




          
                 projeto da praça                                        marco da inauguração





1957  1960


Nas transformações que ocorreram na praça, o primeiro elemento original a ser demolido foi o coreto de concreto, fonte de reclamações em função do abandono da construção que incluía um bar no primeiro piso.

No início dos anos 90, foi a vez dos chafarizes, que desativados, foram aterrados para a implantação de jardins em suas bacias. Contudo, em 1998 a Prefeitura optou por recuperar os dois chafarizes que voltaram a funcionar normalmente. 

 

Em 2002, uma nova reforma cobriu o piso de granito e blocos de concreto, demoliu e aterrou os chafarizes, mas manteve parte dos canteiros e os caramanchões originais do projeto de Azevedo Neto, tombados provisoriamente, pelo recente Decreto n° 39102 de 19 de agosto de 2014.




Jardim de Alah, Leblon


O traçado projetado para o Jardim de Alah concebido por Azevedo Neto baseou-se no modelo francês, de inspiração romântica e contemplativa, com canteiros harmoniosos, repartidos e preenchidos por esculturas, lagos e caramanchões.

A proposta, muito mais que o paisagismo para um jardim ou a urbanização de uma área de restinga na verdade, concluía o projeto do Prefeito Carlos Sampaio, de urbanização do canal destinado a renovar as águas da Lagoa Rodrigo de Freitas, tornando-as mais salubres além de reduzir a frequência de enchentes na região.

As obras foram concluídas em 1922 e o canal guarda ainda a pedra inaugural junto à pequena escada de acesso, próximo à Avenida Vieira Souto, onde estão registrados os nomes do Presidente Epitácio Pessoa, do Prefeito Carlos Sampaio e do engenheiro Saturnino de Brito.









Em 1936 a construção de uma segunda ponte sobre o canal do Jardim de Alah, entre as avenidas Visconde de Pirajá e Ataulfo de Paiva, permitiu a implantação total do projeto, inaugurado em 1938. O projeto, de forte potencial turístico, previa a navegação no canal por gôndolas em passeios até a Lagoa e para isso, deques para embarque e desembarque de pessoas.

 
                            

Em 2003, na administração do Prefeito Cesar Maia, o Jardim de Alah foi totalmente reformado pela Prefeitura do Rio. Sua reinauguração, em 20 de dezembro, contemplou a recuperação dos pergolados e treliças de madeira, cuidados e replantio de árvores, principalmente algodoeiros da praia. Os lagos foram reduzidos e recobertos por seixos rolados, as topiarias e folhagens de contorno suprimidas, priorizando as áreas gramadas.

A escultura "Proteção", de Hipollyte Peyrol, original da Praia de Botafogo e transferida por ocasião da inauguração do Jardim em 1937, bem como a obra " A Mulher e o Felino" foram preservadas no lugar.


 








Praça Antero de Quental, Leblon

A praça foi inaugurada em 3 de julho de 1942. O investimento, à época, correspondeu a CR$ 219 500,00 (duzentos e dezenove mil e quinhentos cruzeiros).

De caráter contemplativo, o projeto de Azevedo Neto para o local incluía dois lagos e pérgolas de colunas em concreto revestidas e cobertas por madeira. De traçado regular, a praça possuía no centro um lago cercado por canteiros e alamedas em saibro que contornavam todo o perímetro da praça. Os pergolados uniam as alamedas entre os canteiros ajardinados.



 Anos de 1970

 1957





Em 1962 a praça passou pela primeira obra de reforma destinada à implantação de uma área para recreação infantil. Além do playground, com balanços, escorregas e gangorras, as calçadas do entorno foram pavimentadas mas o traçado geométrico foi mantido.



Com a execução do Projeto Rio Cidade,  em 1996, Praça Antero de Quental foi totalmente reformada, segundo projeto do arquiteto Luiz Eduardo Indio da Costa e do paisagista Fernando Chacel, que procurou manter o uso familiar e recreativo do espaço. Novos canteiros passaram a embelezar o entorno da praça e foram mantidas as áreas destinadas às crianças e à livre circulação. Junto à Avenida Athaulfo de Paiva foi construída uma grande pérgola em chapa metálica, lembrando um pórtico de entrada.




Apos o final das obras do metro da cidade, em 2016, a praça recebeu novo tratamento paisagístico.






Praça Cardeal Arcoverde, Copacabana
Inaugurada em 22 de novembro de 1947 pelo Prefeito Mendes de Moraes, a praça apresentava um traçado orgânico, repletos de curvas e linhas sinuosas com um laguinho de plantas aquáticas no centro. Pequenas pontes com guarda corpo de ferro cruzavam o lago.


 1957

Lago em 1965 foto cedida por Stela Elliot

Nos anos 60 a praça perdeu parte de sua área.  Na ocasião, o projeto original de Azevedo Neto foi aniquilado, dando lugar a uma nova concepção de formas retilíneas.

Em 1987, a praça foi fechada para expansão do Metrô e reaberta em 1994, com nova ordenação em função da estação ali instalada.


  


Praça General Osório, Ipanema

O primeiro ajardinamento da praça aconteceu em 1909 mas, em 1911 uma remodelação propiciou a implantação do Chafariz das Saracuras, oriundo da demolição do Convento da Ajuda.


Foto Malta

Em 8 de maio de 1948 a praça foi reinaugurada pelo Prefeito Mendes de Moraes, com projeto de Azevedo Neto, que dotava a área com dois lagos de formas sinuosas nas extremidades da praça e mantinha, ao centro, o Chafariz das Saracuras como ornamento, porém seco, sem jorro de água. Extensos jardins contornavam a área com bancos de concreto ao redor. 




 Anos de 1940

 

 1983

Em 1970 uma reforma na pavimentação da praça substituiu o saibro e as placas de concreto por pedras portuguesas nas áreas central e circundante.   E, em mais uma intervenção, em 1987, a praça perdeu os lagos laterais, mas ganhou um novo entorno para o chafariz que desde então voltou a verter água, como no Convento da Ajuda.

Contudo, logo depois, parte da praça foi cercada com tapumes para servir de depósito de material para a futura estação do Metrô. Com o atraso e a paralisação das obras, em 1994 a praça foi reaberta e passou por nova reforma em 2001 que instalou grades no seu entorno, recuperou os jardins e o funcionamento do chafariz.

Mais tarde, as obras do Metrô foram retomadas a estação da Praça Gal Osório inaugurada em 2009.




Praça Saens Pena, Tijuca


O ajardinamento da Praça Saens Pena data de 1910, durante a administração do Prefeito Bento Ribeiro. O projeto de Azevedo Neto para o local foi implantado em 1947, com inauguração em 22 de novembro, na administração do Prefeito Mendes de Moraes.  

Executado pela firma L. Quattroni, a proposta contemplava o espaço com um lago de concreto com repuxos e um jato, canteiros e piso de pedra portuguesa decorada, além de garantir a permanência do coreto.


 Anos de 1950


Em 1977, com a implantação do Metrô, a Praça Saens Peña passou por uma grande intervenção que, entre outras mudanças, removeu o coreto transferindo-o para do para a Praça Catolé do Rocha, em Vigário Geral.

Somente em 1982 a praça reformada foi reinaugurada junto com a estação do Metrô, mas com canteiros alterados e a construção de grandes caixas para a ventilação da estação subterrânea. Do projeto original de Azevedo Neto, apenas o chafariz com o seu jorro, permanece no local.

 1982


Praça Nobel, Grajaú

Construída em 1940, a Praça Nobel é outro importante projeto de Azevedo Neto. De traçado retilíneo e canteiros centrais, a praça predominantemente contemplativa apresentava como elemento decorativo um belo pergolado revestido de pedra no trecho lateral, aproveitando a elevação do terreno. 
Apesar das transformações sofridas nos últimos anos para implantação de equipamentos voltados para novos usos, o pergolado de outrora sobrevive como um pequeno recanto contemplativo do projeto original.


 1940





Avenida Edson Passos, Tijuca

A implantação de pequenos recantos ajardinados ao longo da Av. Edson Passos, executados pela Sociedade Brasileira de Urbanismo, ocorreu por volta de 1941 tendo custado à época, a importância de CR$ 59 800,00 (cinquenta e nove mil e oitocentos  mil cruzeiros.  O plantio, iniciado de 25 de julho de 1942 e concluído em 24 de janeiro de 1943, coube ao Departamento de Parques da Prefeitura, hoje Fundação Parques e Jardins

Dentre os muitos jardins criados pelo paisagista, os do Alto da Boa Vista são que se mantém mais íntegros, com destaque para os lagos e as obras de arte que os integram.

 1950
  





Avenida Vieira Souto e Delfim Moreira, Ipanema

Nos anos 40, por iniciativa do prefeito Mendes de Moraes, o projeto criado por de Azevedo Neto, foi implantado ao longo das avenidas, recuperando a vegetação de restinga. A proposta incluía o plantio de coqueiros e alguns quiosques de sapê. Além de embelezar, o tratamento paisagístico da margem de areia da praia, tinha como objetivo diminuir o carreamento de areia para as avenidas.

 1951

   Foto Gilberto Negreiros


Praça Piaçava, Lagoa 

A praça ficava situada nas margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, na Fonte da Saudade. Construída na década de 40 (1940-49) acabou desaparecendo com as obras para o acesso ao Túnel Rebouças.



  Praça Belmonte, Olaria

A praça foi construída nos anos de 1940, com um coreto de concreto armado sobre um riacho  que corta a praça, unidos os dois lados. Situada a margem da Rua Delfim Carlos, a praça era inicialmente composta por canteiro ajardinados, com o coreto no seu centro. Nos anos de 1990 teve parte de sua área ocupada por uma escola publica reduzindo a área livre. Nos anos de 2000 recebeu outra reforma para ser utilizada como espaço esportivo, contudo a coreto permanece numa referencia ao passado e de pertencimento do bairro.




 1994