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domingo, 16 de fevereiro de 2014

Siqueira Campos e o Monumento ao Levante do Forte em Copacabana


Esta história se iniciou com a descoberta de algumas fotos antigas do Monumento aos Dezoito do Forte nos arquivos da Prefeitura do Rio de Janeiro, datadas de 17 de setembro de 1959.

As fotos sugerem a retirada da estátua de Siqueira Campos da Praça Eugênio Franco, em Copacabana, sendo que a obra estava sobre o Marco ao Levante do Forte.


                               


 




Na pesquisa, eu verifiquei que o busto em homenagem a Siqueira Campos – obra de H. Bertazzoni – tinha sido inaugurado em 16 de julho 1937. Ele foi instalado inicialmente na Avenida Atlântica, em frente a um cassino, e atualmente está na Praça Eugênio Franco, na entrada do Forte de Copacabana.


Contudo, matéria publicada na revista Veja de 10 de julho de 1974 traz o seguinte relato:


“Em 1932, o Major-aviador Carlos Saldanha da Gama Chevalier e o jornalista Rodolfo Dantas imaginaram uma festiva subscrição popular para custear o monumento. Chevalier, um participante secundário do levante do forte, recorda: ‘Tudo se fez para arrecadar dinheiro, chás dançantes,  corridas de Jockey e uma excursão da Miss Brasil da época, Yolanda Pereira, levantando contribuições’.


Com 57 contos de réis arrecadados, foi possível encomendar o trabalho do escultor e, com a sobra, pagar a fundição. A estátua da Siqueira Campos ficou pronta, mas dividido em três partes, sem a solda final, foi deixado muito tempo no Forte de Copacabana, aguardando as providências municipais que o transformaram o monumento público.

Do Forte foi levado ao Arsenal de guerra, onde esteve sob ameaça de ser fundido. ‘Felizmente, ele escapou desse destino’, suspirou Chevalier, ‘mas desapareceu’. Tornou a surgir, há poucos meses, provisoriamente montado no 25º Batalhão de Pára-Quedistas, no distante Campo dos Afonsos dos subúrbios cariocas, graças a um telefonema anônimo para a redação de um jornal.

Recuperado, o monumento aos 18 do Forte foi finalmente erguido na praia de Copacabana. Exatamente como havia sido planejado quarenta anos antes, a não ser por uma pequena alteração: na placa comemorativa, foram trocados os nomes dos colaboradores originais pelos do Governador e do Secretário de Obras do Estado, e se homenageou também o vice-presidente da República, Adalberto Pereira dos Santos, convidado à cerimônia.”

Em outra matéria, publicada pelo jornal O Globo no dia 7 de julho de 1974, existe o seguinte relato: 

“Para perpetuar a memória dos que sucumbiram nos dias ‘05 de julho’ e como uma consagração a quantos neles tomaram parte, foi lançada a idéia de erguer-se um monumento, o qual, entretanto, ainda não foi concretizado, ‘(à época deste relato – 17/09/1944)’, senão em parte, com a ereção do grande marco comemorativo, existente na Praça Eugênio Franco, nas proximidades do Forte de Copacabana. Vitorioso o movimento revolucionário de 1930, houve quem sugerisse a idéia da construção de um monumento aos heróis de Copacabana, ou aos ‘Dezoito do Forte’, como ficou conhecido a revolta de ‘05 de julho de 1922’. Foi o principal animador dessa iniciativa, o Tenente Carlos Chevalier. As subscrições abertas apresentaram, imediatamente, parcelas apreciáveis. Foi encarregado de organizar o projeto e levar a termo a obra o escultor Jose Rangel. O Prefeito do Distrito Federal Sr. Pedro Ernesto prontificou-se a ceder o material necessário a construção do pedestal. As pedras foram trabalhadas no morro da Viúva e ali ficaram aguardando transporte para o local. Também à figura do soldado em bronze no Arsenal de guerra, ai permaneceu à espera de condução.

Em resumo o monumento não foi inaugurado. 

Em 1943, o Coronel Euclides Hermes da Fonseca e outros oficiais reviveram a idéia da homenagem inexplicavelmente abandonada, e procuraram o prefeito desta capital a quem expuseram os propósitos de concluir a tarefa iniciada. Entretanto, a vista da impossibilidade da construção do monumento com a brevidade que seria de desejar, o prefeito sugeriu – e a sugestão foi aceita – que se levantasse um marco comemorativo dos dois ‘05 de Julho’ na praça Fronteira ao Forte de Copacabana, até que fosse efetivada a construção do grandioso monumento que deverá recordar os dois fatos históricos em homenagem aos que tomaram parte nos dois movimentos revolucionários desta capital e de São Paulo. É esse o grande marco que se ergue no centro da praça Eugenio Franco.”

Com base nestas informações, eu formulei a hipótese de que a estátua de Siqueira Campos foi executada no inicio dos anos 1930, mas o monumento ao Levante aos Dezoito do Forte, idealizado por José Rangel, não foi construído.  Com uma estátua inacabada, ergue-se em 1937 o busto em sua homenagem.


Provavelmente com a transferência do busto para a praça, ficou evidente  a dupla homenagem, isto é, uma: a estátua e o busto.

As fotos iniciais são da retirada da estátua em 1959. As matérias da imprensa confirmam que ela esteve sumida até 1974, quando foi descoberta no 25º Batalhão de Pára-Quedistas, no  Campo dos Afonsos. 

Esta carta do brigadeiro Eduardo Gomes ao secretario de Obras confirma a solicitação da estátua na Avenida Atlântica:  

“Exmo. Sr. Dr. Emílio Ibrahim
M..D. Secretário de Estado

Só agora, por motivo de saúde, posso agradecer a V. Exa. a carta que me dirigiu a 24 de outubro p.p, a propósito do monumento que se pretende erigir em memória do ‘heroísmo e bravura dos combatentes que não se renderam’ a 5 de julho de 1922.

Muito me sensibilizaram quer as expressões daquela missiva, quer a intenção do Governo do Estado, do qual V. Exa. é autorizado intérprete, de localizar o referido monumento, tanto quanto possível, no mesmo local em que tombaram os bravos na missão do holocausto.

Em resposta à consulta de V. Exa. nesse particular, incumbe-me confirmar que o exato local é o mencionado pelo historiador Glauco Carneiro no trecho que V. Exa. teve o cuidado de trasladar da obra ‘O Revolucionário Siqueira Campos’, de autoria do mesmo escritor.

Peço a V. Exa. se digne de transmitir ao Exmo. Sr. Governador Antônio de Pádua Chagas Freitas a reiteração de meu sincero reconhecimento pela honrosa iniciativa de seu Governo.

Peço-lhe ainda aceitar com iguais agradecimentos, a segurança de apreço e estima pessoal, com que me subscrevo. De V. Exa. Patrício e admirador obrigado Brig. Eduardo Gomes.

Rio, 6 de dezembro de 1973”

Uma das placas do Monumento a Siqueira Campos, situado na Avenida Atlântica, esquina com a Rua Siqueira Campos, confirma a solicitação do brigadeiro Eduardo Gomes e a instalação da obra. O texto da placa diz: “Monumento aos Dezoito do Forte de Copacabana, inaugurado a 05 de julho de 1974 com a presença do Vice-Presidente da República do Exército Adalberto Ferreira dos Santos e representando o Presidente da República General de Exército Ernesto Geisel e do Governador Chagas Freitas e do Brigadeiro Eduardo Gomes.”



A relação deste monumento com o existente na Praça Eugênio Franco é evidenciada na placa de bronze em baixo-relevo fixada na lateral do pedestal. Em ambos os monumentos está fixada a mesma cena dos militares caminhando pela Avenida Atlântica.