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terça-feira, 3 de setembro de 2013

Francisco Bolonha e seus chafarizes na Cidade do Rio de Janeiro.

Os chafarizes de concreto armado construídos entre 1960/65 pelo Governador Carlos Lacerda para as Comemorações do 4° Centenário da Cidade do Rio de Janeiro são atribuídos a Francisco de Paula Lemos Bolonha. Autor de inúmeros projetos públicos e privados, seus projetos se destacam pelas formas arrojadas e perfeição plástica.


Breve Trajetória
A atuação de Bolonha em obras públicas teve início entre 1946/47 a partir do convite de Burle Marx para realizar a Fonte Andrade Junior, em Araxá, Minas Gerais.  Bolonha, à época, já explorava as potencialidades formais do concreto armado.


Pintura em Aquarela - Fonte Andrade Júnior,  Material encontrado no edifício administrativo da CODEMIG


O ingresso no funcionalismo público do então Distrito Federal acontece em 1946, por indicação de Reidy, quando projeta os Conjuntos Residenciais de Paquetá (1947/1952).  


Em 1956 cria o Monumento a José Inácio Peixoto para a Cidade de Cataguases (MG).

Em 1960 foi convidado pelo Governador Carlos Lacerda para dirigir  Divisão de Construções e Equipamentos Escolares do Estado da Guanabara onde atuou até 1964. Neste período, desenvolveu cinco projetos padrão de escolas.  
Em 1965, recebeu a Medalha Anchieta pelos serviços prestados à Educação, contabilizando 242 escolas construídas. 


Os chafarizes de Bolonha nos bairros do Rio
Em relação aos chafarizes cariocas, embora não disponha de nenhum de seus projetos, vários são os depoimentos, que identificam sua autoria.

Uma das mais expressivas referências é o testemunho do engenheiro Emilio Alfredo Giannelli, filho de Emmilio Gianelli, cuja empresa – a Companhia Marnito S/A – foi encarregada da construção desses equipamentos. Gianenlli  Filho, que  acompanhou  com seu pai a execução dos chafarizes das praças Varnhagem, Ben Gurion, General Bittencourt e da Fé, credita a amizade que ligou o arquiteto a seu pai ao empenho deste em executar com perfeição os projetos. E lembra, com detalhes, muitas das conversas do pai sobre as formas metálicas necessárias para execução do chafariz em forma de concha, em Laranjeiras.
Assim, contando com este, identificamos 7 obras de Francisco Bolonha no Rio de Janeiro. Destas, apenas 2 permanecem em seus locais originais – o da Praça Edmundo Bittencourt,em Copacabana e o da Praça Bem Gurion, em Laranjeiras. Dos 5 restantes, 2 passaram por reformas e/ou foram transferidos e 3 foram demolidos.

Os que não existem mais
Méier - O primeiro a desaparecer em função de obras, em 1989, foi o do Jardim do Méier que deu lugar ao viaduto que liga os dois lados do bairro cortado pela via férrea. Considerado um dos mais arrojados, o chafariz destacava-se pela qualidade plástica em concreto e suas bacias em flor de estilo neoclássico. 



Cascadura - Uma de suas obras de linhas mais simples, o chafariz situava-se na Praça Nossa Senhora do Amparo. Foi construído por volta de 1964 para a inauguração da praça, reconhecida como logradouro público pelo decreto E nº 246, e demolido em 1995, durante reforma promovida na praça para reordenação viária do bairro.



Bangu - O seguinte foi instalado na Praça da Fé.   Também teve o projeto de demolição aprovado em 1995, (se concretizando em 2002), por ter  seu valor artístico considerado irrelevante ante a reforma urbanística proposta pelo projeto Rio Cidade para o bairro. 

É interessante destacar a iniciativa de Lacerda em dotar o subúrbio carioca, região carente de obras de arte públicas, com chafarizes modernos.  Infelizmente, amparado pelas queixas constantes da população, o final dos anos 80 e inicio dos 90 foram marcados pelo desaparecimento de boa parte de iniciativas semelhantes. Queixas estas muitas vezes geradas pela omissão e descuido do próprio poder público em relação a elas...


Os que ainda estão por aí 

Tijuca - Em foto de 1965 do jornal O Globo, o chafariz da Praça Varnhagem aparece em funcionamento instalado em lugar de destaque, no centro de um grande lago.  Em 1992, este lago foi cercado com grades de ferro para impedir sua utilização por mendigos e depredação por vândalos. Em 2002, uma nova reforma na praça, preservou o chafariz, porém, reduziu a dimensão do lago, coberto por grades de metal a fim de impedir sua má utilização.

Atualmente, o chafariz encontra-se no depósito da Prefeitura, no Parque Noronha Santos, Centro, aguardando o fim das obras de construção de um grande reservatório na praça para o controle de enchentes na Grande Tijuca e na Praça da Bandeira.
 1965

 1993  2005

                                                           2016



Ilha do Governador -  também recentemente removido, o chafariz situado na Avenida General Trompowsky, no acesso a Ilha do Governador, foi inaugurado em 1957.
À época de sua construção, funcionava como um marco na Avenida Brasil para identificar o acesso à Ilha do Governador. Ao longo dos anos, sua visibilidade foi sendo comprometida pelas construções ao redor.  Sem funcionar desde a década de 90 devido a dificuldades de manutenção, permaneceu ali pela insistência em se reconhecer e preservar o acervo público das obras de seu autor.
Recolhido ao depósito municipal desde 2012,  aguarda a conclusão das obras de implantação da via Transcarioca e definição de nova localização.

  



Copacabana - Felizmente, a situação do Chafariz da Praça Edmundo Bittencourt, no Bairro Peixoto, é bem diferente.   Em 1964, o  Departamento de Parques e Jardins reformou a praça. Para marcar a intervenção, as empresas  "Rei da Voz"  e "Bendix" doaram a obra de Bolonha para a Cidade. Querido pelos moradores, o chafariz que lembra um leque permanece até hoje em boas condições.

No bairro a história corrente é que o equipamento foi um presente de Abrahão Medina, dono das lojas "Rei  da Voz”, morador da Rua Décio Vilares. 

Embora sem comprovação, há registro de que nos anos 70 uma reforma na praça modificou levemente o projeto original de Bolonha, removendo uma provável terceira bacia do chafariz, cuja icnografia nunca foi encontrada.

 



Laranjeiras – A obra que considero mais arrojada, encontra-se na Praça Bem Gurion.   O chafariz em forma de concha, todo em curvas, executado em concreto armado, foi patrocinado pela Shell do Brasil, por sua semelhança com o símbolo da empresa. 


  
O chafariz da Praça tem seu funcionamento limitado, em função da preocupação de alguns moradores de que o chafariz é o responsável pela presença de desocupados na região, o que discordo.

Argumentos como este, associados à ignorância em relação ao valor artístico de muitas obras que ornamentam nossa cidade contribuem para a perda da memória urbana e comprometem o acervo público carioca. Por essa razão, a história dos chafarizes criados por Francisco Bolonha merece pesquisa e divulgação a fim de garantir a sobrevivência e o reconhecimento de sua obra em nossas ruas


Bangu -  O chafariz de Bangu conhecido como Chafariz da Igreja foi inaugurado em 1965. Foi demolido em 2002 e reconstruído em 2014 por solicitação do prefeito.




 Francisco Bolonha - foto da internet

Francisco Bolonha | 1923 - 2006
Francisco de Paula Lemos Bolonha nasceu a 3 de junho de 1923 em Belém do Pará, de onde saiu rumo ao Rio de Janeiro ainda criança, já com a intenção de se tornar arquiteto. Em 1945, formou-se pela primeira turma da Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil. Homem de personalidade contida e discreta, distanciou-se da pessoa extrovertida e falante que cursou a Escola Nacional de Belas Artes. Apesar de nunca ter feito publicidade do que construiu, Bolonha teve durante as décadas de 40, 50 e 60 sua obra publicada em diversas revistas nacionais e estrangeiras (Habitat, PDF, Arquitetura Revista e AU/ L'Architecture d'Aujourd'hui, Architectural Forum, Architectural Journal, Brasilianische Architectur, The Architectural Review, Bauen + Wohnen Internationale Zeitschrift, Abitare e Architektur und Kultiviertes Wohnen). Por ter se acostumado ao silêncio da crítica depois desta época e ao longo dos anos, surpreendeu-se recentemente com o crescente interesse das gerações mais novas pelo estudo de sua obra.

No início da carreira, Bolonha aproximou-se da vertente arquitetônica recomendada por Lucio Costa. Os projetos construídos entre 1946 e 1959 caracterizam a primeira fase de sua obra e possuem a expressão formal e o vocabulário da Escola Carioca. A partir da adição de volumes distintos e altos pés-direitos, Bolonha alcançou espaços de grande fluidez e interpenetração visual. A segunda fase da carreira iniciou-se com os projetos da década de 1960, que demonstram linguagem mais sóbria, de caráter construtivo bastante acentuado e de formas puras. O arquiteto passou a resolver os programas em volumes únicos, mais fechados e com menos transparência. Foi justamente nesta ocasião que Bolonha começou a afirmar ter passado a entender a arquitetura como ciência. Em um sentido amplo e clássico, referia-se a um saber metódico e rigoroso, que definia a arquitetura como conjunto de conhecimentos sistematicamente organizados.


Mas se o arquiteto se afastou da Escola Carioca, é preciso dizer também que ele não acompanhou, por exemplo, as experimentações associadas à exploração plástica do concreto armado, ou os grandes vãos e balanços que o material possibilitava, tendências que puderam ser observadas de um lado em Niemeyer no período pós-Brasília, e de outro, na arquitetura característica da Escola Paulista. Mesmo que seja possível apontar duas fases em sua obra, sendo a primeira mais nativista e a segunda, mais concretista, o arquiteto não abandonou por completo alguns dos procedimentos iniciais que contribuíram para caracterizar mais fortemente os primeiros projetos como possuidores de vínculo com o passado de nossa arquitetura. Não por acaso, Bolonha utilizou o telhado cerâmico no mosteiro de Belo Horizonte (1949-1999), nas escolas do Governo Lacerda (1960 a 1964) e mais tarde, no projeto não construído para uma residência em Brasília (1979). A idéia da integração das artes também permaneceu no arquiteto e os painéis artísticos utilizados nos passeios públicos e nas escolas, nunca esconderam a crença no papel social e educativo da arquitetura.


Com o passar do tempo, Bolonha encaminhou-se para uma extrema racionalização do fazer arquitetônico, traduzido pela acentuação de sua preocupação com a verdade construtiva e pelo respeito às questões econômicas, funcionais e programáticas. Se não alcançou a perfeição, deixou claro que esta busca deu à sua obra caráter singular de atividade diária e muita dedicação:


"Se nada funciona, não se pode dizer que é boa arquitetura... (...) O arquiteto tem que trabalhar todo dia, como o pintor pinta todo dia, como o escritor escreve todo dia, ou como o médico pratica todo dia..."


Ao afirmar que as soluções corretas deveriam ser utilizadas por todos, assumiu o lado humano da profissão. Tornou-se um homem cada vez mais introspectivo, influenciado talvez pelo intenso contato que travou com um modo de vida muito especial, diverso do seu, e bastante diferente daquele do menino paraense, habituado às regalias de uma família abastada que nunca lhe negou auxílio ou proteção. A recusa aos privilégios e a tomada de consciência das diferenças de classes, já indicavam na infância, traços de uma individualidade que se acentuariam ao longo do tempo. A amizade com o monge Dom Inácio lhe rendeu muito mais do que inúmeros trabalhos para a Ordem Beneditina. Dedicou sua vida à construção do Mosteiro de Nossa Senhora das Graças, obra pela qual o arquiteto sempre afirmou ter muito carinho. Por ter durado 50 anos, é aquela que permite refletir criticamente sobre suas escolhas e posicionamento frente às teorias que lhe serviram de referência. Além disto, também constitui-se em sofisticada arquitetura pelo cruzamento de citações que explicita em relação a seus demais projetos.


"Sabe o que é, tem uma dignidade o mosteiro... Não é “arquitetura moderna”, é uma arquitetura... Eu pensei em fazer arquitetura, só."


O arquiteto faleceu no Rio de Janeiro na manhã do dia 30 de dezembro de 2006. Seu corpo foi cremado, conforme sua vontade. O desejo do arquiteto de ter um sepultamento simples, mais do que discreto, também foi acatado pela família. Estreitos foram seus laços com o Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro. A Missa de Sétimo Dia de sua morte não poderia ter sido marcada em lugar mais significativo.


Marcia Poppe

http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/07.080/276