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domingo, 5 de março de 2017

Celso Antonio "O trabalhador" e o Artista

Celso Antônio Silveira de Menezes nasceu no Maranhão em 1896. Em 1913, iniciou seus estudos na Escola Nacional de Belas Artes e estudou no ateliê de Rodolfo Bernardelli. Em 1923, foi contemplado com uma bolsa de estudos do governo do Maranhão, para estudar em Paris, onde permaneceu até 1926. Tornou-se discípulo e depois auxiliar de Antoine Bourdelle.

No regresso ao Brasil, Celso Antônio recebeu diversas encomendas. A primeira foi inaugurada em 27 de novembro de 1927, o “Monumento ao Café”, em Campinas (SP). A obra apresenta, em relevos de bronze, um cafeeiro, um lavrador negro, uma lavradora de origem italiana e um estivador, dispostos sobre um bloco retangular de granito.


Em 1930, Celso Antônio se mudou para o Rio de Janeiro. A convite de Lúcio Costa, assumiu a cadeira de estatuária na Escola Nacional de Belas Artes.





Nos primeiros anos do governo do presidente Getúlio Vargas, Celso Antônio realizou diversas encomendas oficiais, convidado pelo ministro da Educação e Cultura, Gustavo Capanema. Para o Palácio Capanema, criou as esculturas em pedra “Moça Reclinada”, situada hoje na escada do hall de entrada, e “A Maternidade”, que se encontra na Praia de Botafogo. Nas mulheres, o artista marca uma representação da brasilidade, com os traços da cabocla, uma figura mestiça.


FOTO: “Moça Reclinada”, de Celso Antônio de Menezes. Fonte: DUARTE-DUPLON, L. Celso Antônio e a condenação da arte. Rio de Janeiro: Niterói Livros, 2011, p. 126.
      Moça Reclinada

  Maternidade

No governo do presidente Eurico Dutra, este encomendou a Celso Antônio uma estátua para ser instalada na frente do Ministério do Trabalho no Dia do Trabalhador. O artista, então, representou o biótipo brasileiro, contrariando o gosto predominante da época e realizando uma representação idealizada da figura humana. A figura tem três metros de altura, em pedra, atarracada e compacta, monolítica, forte, com lábios grandes, sem camisa, descalça e trajando um avental.


A estátua foi inaugurada na Avenida Presidente Antônio Carlos, no centro do Rio, no dia 1º de maio de 1950, com a presença do presidente da República, que, ao retirar o manto que cobria o monumento, disse indignado: “Não gostei”.


O monumento, a partir de então, sofreu represália da imprensa, que atacou a obra, o autor, o ministro e o governo. A figura do brasileiro – representada no Modernismo na pintura de Portinari, Di Cavalcanti e outros – não resistiu às ruas. A estátua foi retirada do seu pedestal e transferida para um depósito três dias depois de inaugurada.

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Em uma de suas manchetes, o jornal Correio da Manhã chamou o monumento de “símbolo monstruoso”. A reação mais contundente foi do jornal O Globo, que escreveu que os trabalhadores eram vítimas de muita coisa, inclusive dessa homenagem: “É uma estátua irreconhecível, barrigudona e de roupão de granito, como se fora um símbolo do banhista ou do afogado desconhecido”.

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A estátua foi removida com a promessa oficial de retornar modificada ao seu local de origem. A obra, contudo, permaneceu abandonada por muitos anos.


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Em 1974, finalmente, a escultura foi doada e instalada na cidade de Niterói (RJ). Mesmo sem nenhuma cerimônia especial ou placa de identificação, a peça foi colocada em um pequeno pedestal de quatro degraus de cimento na Praça Enéas de Castro, no bairro de tradição operária do Barreto, como uma das iniciativas de celebração do quarto centenário da cidade.


Em 1978, a Casa da Moeda cunhou a Medalha do Dia do Trabalho, criação de Celso Antônio alusiva à escultura. Medindo cinco centímetros de diâmetro, foram realizadas trinta unidades em ouro, seiscentas em prata e cento e setenta em bronze.

 

Em 1983, com festa, a estátua foi transferida para um novo pedestal – sem que sua concepção artística fosse questionada – no Parque Municipal Palmir Silva, em frente à Biblioteca Municipal Machado de Assis, em Niterói, onde permanece.



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"O Trabalhador" foi a última grande obra pública de Celso Antônio. Em 1966, o artista realizou o busto do poeta Manuel Bandeira, cuja réplica se encontra no Parque Manuel Bandeira, na Ilha do Governador, Rio de Janeiro, desde dezembro de 2011.


Celso Antônio manteve uma vida discreta, executando pequenas peças, desenhos e aquarelas em seu ateliê. Atualmente, é reconhecido como um dos mais importantes artistas modernos brasileiros.

 Caminhantes de 23 x 15 x19cm


 Mulher com as Mãos na Cabeça de  41 x 8 x 8cm


Por ocasião do falecimento de Celso Antônio, Carlos Drummond de Andrade publicou no Jornal do Brasil, em 31 de maio de 1984, após tecer longo comentário acerca da vida e obra do escultor maranhense: “Falecido no último sábado, Celso Antonio merece ser redescoberto e analisado criticamente como uma das expressões mais fortes da escultura brasileira.”


(*)Recortes de jornais cedidos por Alexandre Peri Barros.