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quarta-feira, 1 de abril de 2015

Preservação das obras de arte francesas em ferro.


Chafariz Monumental do Monroe.

O entusiasmo do Imperador D Pedro II, pelas artes e tecnologia, com certeza, foi à  motivação para a ida de uma delegação a Exposição de Viena em 1873.  O Chafariz Monumental do Monroe foi o primeiro a ser oficialmente adquirido, e escolhido pessoalmente pelo Imperador na Europa. Contudo  só há registros referentes à sua instalação no Largo do Paço, em 1878.  A inauguração pôs fim ao tratamento urbanístico iniciado em 1872, junto à sede do império.


Após a Proclamação da República sérias questões na área de saúde pública e a busca de uma nova feição para a capital provocaram grandes intervenções que alteraram o perfil urbano da cidade. O auge delas ocorreu no Governo do Presidente Rodrigues Alves (1902-1906) tendo à frente o Prefeito Pereira Passos, responsável por um verdadeiro “bota-abaixo” que demoliu dezenas residências, dando lugar a novos espaços e avenidas, como a Praça XV. 

Com parte do viaduto da Avenida Perimetral, que corta a Praça XV, inaugurado em 1960, discussões quanto à natureza urbanística e estética avaliam que a permanência do chafariz do Monroe em meio a outros monumentos – Chafariz colonial de Mestre Valentim, a Estátua de D. João VI e do General Osório – não é adequada., direcionou  a sua transferência  para a Praça da Bandeira, ação concretizada em 1962.                                                                                                                                          
                                                                               
A partir de 1975, a Cidade do Rio de Janeiro vive nova transformação urbana com a construção do Metrô. Ruas, avenidas, praças são interditadas e muitas edificações demolidas. A de maior repercussão foi à derrubada do Palácio do Monroe,  prédio do Senado Brasileiro. Para preencher o vazio deixado pela remoção do  palácio surge a proposta de transferir, mais uma vez, o Chafariz Monumental da Praça da Bandeira  para a Praça Manhatan Guandi, poupando-o das freqüentes enchentes. A desmontagem tem início em 1978

Ciente dos abalos causados a cada mudança de lugar não só deste, mas de outros monumentos da cidade, a prefeitura oficializou a preservação propondo o tombamento do Chafariz Monumental do Monroe, na Praça Mahatma Gandi, em 03 de fevereiro de 1988.  A iniciativa foi seguida pelo Governo Federal, fevereiro de 1990, em reconhecimento ao valor artístico e histórico dessa obra. 

Em 1999, mais uma vez em função do crescimento da cidade, a Prefeitura autorizou a construção de garagens subterrâneas sob as áreas públicas. A primeira concretizada foi justamente do espaço onde estava o Chafariz adquirido  por D Pedro II.   Assim novamente ocorre a desmontagem do chafariz que teve início em junho de 2001 na presença de representantes da Fundação Parques e Jardins, Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), Instituto Nacional de Tecnologia e dos restauradores franceses Marcela Munoz e Stéphane Pennec.

 
A desmontagem do Chafariz Monumental do Monroe e o seu entorno.

A desmontagem das peças de ferro que ocorreu em três dias.  Aos poucos, conforme iam sendo removida, cada uma das partes era transferida do canteiro de obras para o depósito municipal. Nesta etapa ficaram evidenciadas as corrosões dos parafusos, nos encaixe e o desgaste da pintura. Pode-se constatar também  o grau de corrosão interna, bem como a existência de rachaduras na bacia de acumulação e fendas na escultura  “ÁSIA”.
                                                             
O desmonte e a conseqüente avaliação do estado geral das peças permitiu à equipe dimensionar o nível de comprometimento e elaborar um projeto de restauração que contemplasse todo o equipamento. Foi realizado o mapeamento minucioso dos danos existentes em cada uma das 37 peças que o integram, em suas faces interna e externa.

 Detalhe do Chafariz do Monroe

 Transporte do ferro fundido


Em 2002, teve início, enfim, a  restauração após aprovação de todos os órgãos ligados à preservação do patrimônio histórico e artístico.  Todas as peças foram decapadas e aquelas com cimento tiveram a remoção manualmente.  Os moldes de borracha de silicone e gesso foram confeccionados no local para reconstituir as partes danificadas ou faltantes, fundidas com material semelhante ao original, em dimensões, aspecto e qualidade
                                                                             
Na recomposição da perna e dos pés das duas alegorias, seriamente danificadas por corrosão, teve preenchimento interno utilizou argamassa e cal sendo externamente reconstituído em ferro fundido.

Em função dos diversos agentes ambientais  a que se encontra submetida - corrosão atmosférica urbana-marinha, incidência de raios ultravioleta e imersão intercalada de água, foi utilizada tinta linha Internacional nas seguintes condições:  uma demão  de fundo com 125 micros, uma intermediária na mesma espessura em tom cinza claro e outra de acabamento de 75  perfazendo um total de 225 mícron.  Nesta fase foi contratado um inspetor de pintura industrial, para detalhar os procedimentos técnicos e acompanhar as etapas de limpeza e aplicação da tinta especificada.

A montagem do chafariz obedeceu aos mesmos critérios empregados na operação de desmontagem, segundo codificação estabelecida na planta topográfica e com cuidados redobrados para evitar danos na pintura.

Os parafusos foram substituídos por de aço carbono, e os rejuntes e encaixes foram preenchidos por resina epóxi. Após período de cura foram nivelados e pintados com a mesma tinta de acabamento. Todos os bicos foram refeitos em bronze. Com o chafariz já completamente remontado e suas lacunas preenchidas, uma última inspeção conferiu a estanquiedade.

 Montagem do Chafariz do Monroe

A reinauguração em 2004 marcou também o fim da restauração do Chafariz Monumental do Monroe, que no auge de sua belíssima e inspiradora forma, voltou a encantar todo os que transitam pelo Centro da Cidade do Rio Janeiro.



Conjunto  escultórico da Praça Tiradentes.


Este conjunto representando símbolos das virtudes das nações modernas – Fidelidade, Lealdade, União e Justiça  também foi selecionado por D. Pedro II, em 1889. As estátuas deveriam ornamentar a Praça da Constituição, onde em 1862, fora erguido o primeiro monumento do Brasil – uma homenagem do Imperador a seu pai, Pedro I.






                                                                                    
Durante 60 anos o conjunto permaneceu no local, sem que se saiba até hoje quais motivos levaram a transferir, na década de 50, as estátuas para o Campo de São Cristóvão, de onde saíram, em 1986, devido à construção de uma via expressa.

Em 1992, as belas estátuas de Mathurin Moreau foram reinstaladas, sem considerar suas “raízes históricas” e sem os pedestais originais, nos jardins do Parque  Noronha Santos,  no Centro.  Permaneceram relegadas ao ostracismo até 1999, quando foram novamente deslocadas, desta vez, para representar a arte em ferro fundido das Fonderies do Val D’Osne na exposição montada temporariamente em importante praça da zona sul carioca, para valorizar a importância dessas obras.  

Paralelamente, neste mesmo ano, a Prefeitura do Rio deu início a um novo programa  visando à restauração da Praça Tiradentes e o casario existente em seu entorno.  O projeto, financiado através do Banco Interamericano de Desenvolvimento e o Ministério da Cultura, em convenio com a Secretaria Municipal das Culturas, incluía a restauração do Monumento à D.Pedro I e a volta dessas estátuas e seus pedestais originais. A aprovação do orçamento e liberação dos recursos, em 2002, deu início ao projeto.

O único pedestal remanescente, pertencente à “União” serviu de modelo para a execução das partes faltantes nos demais.  Com base no levantamento  métrico foi possível reconstituir partes deterioradas e desaparecidas, como as placas de identificação (Justiça, Fidelidade e Liberdade).

A remoção das diversas camadas de tintas que encobriam as esculturas recuperou  a riqueza da obra evidenciando o planejamento, os detalhes de cada figura e a perfeição de suas linhas em ferro fundido. Ao contrário do Chafariz do Monroe, as inúmeras camadas de tinta protegeram as estátuas, porém quase descaracterizaram o grupo. A única fenda encontrada e sem expansão de corrosão estava na figura da Justiça, e sugeria a possibilidade de uma bolha no processo de fundição.

O bom estado e a integridade das peças geraram apenas pequenas intervenções junto a depressões na superfície e, na fenda o preenchimento em massa epóxi. A pintura de acabamento foi feita com o conjunto já reinstalado na Praça.



Escultura da Sereia  do Campo de  Santana

Em 1873, o Imperador D Pedro II, após a contratação do  paisagista Auguste  Glaziou  iniciou as obras de paisagismo do Campo de Santana, parque inaugurado em 1880, no dia da nossa independência, sete de setembro. Segundo relatos da época, o Campo era cercado por artísticas grades de ferro, caminhos cobertos de areia fina, lindas árvores e arbustos que se espalhavam nos gramados, pequenos lagos e canais, atravessados por pontes “que fingem pedras”, ilhas ornadas por pedras e vegetação exótica, mesclada por belas figuras e repuxos d’água.  À exceção da redução de parte de sua área total, em 1945, em função da abertura da Avenida Presidente Vargas, o parque permanece o mesmo.

A figura que merece destaque é uma fonte, de autoria do artista Serres, que foi instalada por Glaziou para abastecer um dos lagos do parque.  Em  2006, a bela Sereia completou 126 anos de ininterrupto funcionamento.  Neste mesmo ano, uma limpeza do fundo  do lago exigiu a retirada da água permitindo a aproximação da escultura e a avaliação de seu real estado de conservação ante os efeitos da água. Os sinais de degradação eram grandes: corrosão acentuada e deformação dos dedos, rosto e do peixe.


  


A ausência de garantias de que após tratamento adequado o acompanhamento visual fosse suficiente para detectar e sanar futuros problemas sem risco de comprometer irreparavelmente a escultura determinou sua retirada e a preservação da Sereia original, após restauração, em local mais resguardado.
 
Para não comprometer a bucólica paisagem criada por Glaziou, foi instalada no local  uma réplica em bronze,  visando  à salvaguarda do Patrimônio Público.



Guarde essa

Conservação dos Monumentos públicos da Cidade do Rio de Janeiro

A Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, através da Fundação Parques e Jardins, mantêm ininterruptamente desde o ano de 2000, contratos com firmas especializadas, para garantir o funcionamento das maquinas dos chafarizes  e a limpeza dos 690 Monumentos públicos da Cidade, contra  as pichações, ao acumulo de sujevidade, dos resíduos de animais, numa ação preventiva para a preservação. O programa conhecido como “tolerância zero “ 
representa um custo anual de cerca de  325 mil  dólares, que corresponde a 1/3 do orçamento previsto para a conservação das obras. Esse programa visa no menor tempo possível remover as pichações, inibindo assim as ações de vandalismo e da  depreciação das obras de arte.  Trata-se de uma ação continua que obriga a uma fiscalização constate, que tem alcançado resultados importantes na valorização e na divulgação da nossa Cidade.


Esse artigo foi publicado em Metais: restauração e conservação/ Carlos Bernard R.;organização Felipe Reigada, Laura Di Biasi, Leyla Mariath - Rio de Janeiro: In-Folio,2009.