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segunda-feira, 23 de março de 2015

Restauração e conservação: o caso particular das obras de arte do Passeio Público



O Passeio Público do Rio de Janeiro, primeiro jardim público do Brasil, foi construído em fins do século XVIII pelo Mestre Valentim e tombado em 1938 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN. O jardim passou por intervenções ao longo do tempo, mas o objetivo de restauro promovido em 2004 pela Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro foi resgatar as características do jardim de Glaziou, com valorização dos vários aspectos do projeto de Valentim nele presentes.

O botânico francês Auguste François Marie Glaziou veio ao Brasil em 1858, a convite de D. Pedro II, e aqui permaneceu por 39 anos, implantando os espaços verdes da Corte e preservando-os. Ele trouxe à cidade do Rio de Janeiro os jardins nos moldes ingleses, com alamedas sinuosas em torno de um grande canteiro central.

No Passeio Público, Glaziou manteve os principais elementos decorativos construídos pelo Mestre Valentim. E eram justamente eles que, neste início de século XXI, mais evidenciavam a degradação do espaço. Nos anos 1990, medidas pontuais de recuperação não lograram bons resultados. A ausência de uma atuação constante de conservação no parque fechado inutilizava qualquer iniciativa e desestimulava novas tentativas.

Em 1998, quando a prefeitura providenciou a recuperação dos quiosques de madeira, as construções foram duramente atacadas, em plena obra, provocando a destruição do madeiramento, com a clara intenção de não se concretizar ali um posto de vigilância.


  Foto 1: Balaustrada do terraço danificada para o furto dos balaústres – 2000


 Foto 2: Face interna da coluna do portão de acesso – Portão do Mestre Valentim - 2001


Diante dessas ações, além dos inúmeros outros danos sofridos pelo parque, era imperativa a necessidade de se elaborar um plano de revitalização do Passeio Público. Com esse objetivo, sob a orientação de técnicos do IPHAN, tive acesso aos primeiros estudos para elaboração de um plano de ações, seguindo o Manual de Intervenções em Jardins Históricos, de Carlos Fernando Delfim, lançado posteriormente – em 2005 – pelo IPHAN. O manual indicava as questões a serem estudadas, servindo como ponto de partida para a contratação do projeto executivo de restauração, com diversos pesquisadores e profissionais a elaborar os planos e ações a serem empreendidos no Passeio Público.
                     



Ao final de 2002, já estavam prontos a pesquisa histórica, o levantamento e o mapeamento dos danos dos elementos decorativos, bem como as diretrizes para os projetos de drenagem, paisagismo, hidrossanitários, sinalização, luminotécnica e elétrica. Assim, foi possível, enfim, elaborar um orçamento para a restauração do parque, o que se concretizou no final de 2003.

Contudo, havia questões históricas importantes que não tinham sido estudadas no projeto, como o processo da transformação da Lagoa do Boqueirão no parque, no século XVIII; a existência ou não das construções apresentadas na planta de Gaziou; a pesquisa icnográfica das construções do início do século XX, introduzidas por Pereira Passos. Tais aspectos levaram à necessidade de uma pesquisa arqueológica, o que se tornou uma exigência no período da restauração do jardim histórico.


  Foto 3: Imagem do portão deslocado para a área interna do parque - 1957

A própria Carta de Veneza, de 1964, um dos mais importantes documentos sobre preservação de patrimônios culturais, recomenda, em seu artigo segundo, a necessidade de as equipes responsáveis pelos projetos serem compostas por profissionais das mais diversas áreas. Assim, foi levada a cabo uma pesquisa verdadeiramente interdisciplinar, com a efetiva interligação dos dados produzidos pelos levantamentos históricos, arquitetônicos e arqueológicos.

Ao longo das décadas, as alterações urbanas provocaram efeitos ambientais no entorno do Passeio Público, o que afetou o meio ambiente do parque. Inundações nos períodos chuvosos, por exemplo, impediam a frequência de visitantes. A queda de árvores centenárias, com o apodrecimento das raízes, e a alteração da inclinação de uma das pirâmides do Mestre Valentim evidenciavam a necessidade de acompanhamento do nível do lençol freático, culminando com a introdução de uma rede de drenagem, até então inexistente no local. Também foram realizados levantamentos nas concessionárias de serviços públicos. E a topografia do espaço foi mapeada, para definir o traçado.



 Foto 4: Pirâmide inclinada com escoramento - 2001

A primeira intervenção física foi a implantação da rede de drenagem, tarefa que, em uma iniciativa inédita, considerou uma legislação específica expressa no Decreto Municipal nº 22.872, de 07/05/2003, cujo Artigo 1º diz que “Todas as obras que envolvam intervenções urbanísticas e/ou topográficas realizadas pelo Poder Público Municipal – direta ou indiretamente, em áreas que sugiram interesse histórico – deverão prever estudos e acompanhamento com vistas à pesquisa arqueológica”.

Assim, as escavações necessárias para o projeto de drenagem seguiram o ritmo e o comando de uma equipe de arqueólogos. A abertura de trincheiras e poços-testes ou qualquer movimento de terra necessário visavam à recuperação de todos os vestígios possíveis, para remontar a história do Passeio Público. Foi encontrada uma grande variedade de material arqueológico: fragmentos de louças dos séculos XVIII e XIX, pedaços de cerâmica, restos de obras (material de construção e de acabamento), ossos humanos e de animais, dentes, vidros e moedas.

Foto 5: Escavação para a construção da nova rede de drenagem

Foto 6: Construção das caixas de drenagem no local

Para desenvolver o projeto de pesquisa arqueológica do Passeio Público, a assessoria de Arqueologia da 6ª Superintendência Regional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (6ªSR/IPHAN) se uniu a profissionais da Fundação Parques e Jardins e da FB Engenharia, com a participação de consultores, arquitetos, arqueólogos, historiadores e paisagistas.


 
Foto 7: Fonte do Jacaré com a bacia completa - R. H. Klumb. Bliblioteca Nacional, 1860


 Foto 8: Fonte do Jacaré - 1996



 Foto 9: Escavações preliminares no entorno da bacia - 2004



Foto 10: Fonte do Jacaré após a restauração de todos os elementos (bronze, cantaria, mármore lioz e ferro fundido – 2004

A partir do projeto de Glaziou, outros vestígios de épocas passadas foram encontrados, como o lago do chafariz na entrada do parque e a casa de Glaziou, que ali habitou. Também foram localizadas algumas intervenções do inicio do século XX, até então desaparecidas, como o Aquário e o Theatro-Cassino.

 
 Foto 11: Lago implantado por Glaziou na entrada do parque e a fonte do Jacaré no fundo – Foto do arquivo do Museu da Cidade

Para o resgate do paisagismo implantado por Glaziou, fez-se uso do levantamento florístico que integrou o projeto executivo do parque, mas também do estudo de outros espaços de Glaziou e dos registros iconográficos do próprio Passeio Público. Nessa fase, a participação de especialistas no trato de jardins históricos foi essencial.
Segundo a Carta de Florença, de 1982, “o trabalho de restauro deve respeitar as sucessivas fases da evolução do jardim em questão. Em princípio, não se deve dar precedência a nenhum período sobre outro, exceto em casos excepcionais, quando o grau de destruição e de danos que afetam algumas partes de um jardim sejam tais que seja decidido reconstruírem-se essas partes, com base nos vestígios que sobreviveram ou em evidências documentais indiscutíveis. Esse trabalho de reconstrução pode ser executado, especialmente, nas partes do jardim situadas mais perto do edifício nele contido, para se fazer sobressair o significado dessas partes do conjunto.”

No Passeio, algumas novas espécies estavam presentes, tendo sido mantidas as que eram compatíveis com o projeto. Permaneceram, por exemplo, os paus-reis ao lado direito da Fonte do Jacaré. No lado esquerdo, foram plantadas palmeiras-imperiais, para formalizar o plantio de Glaziou. E resgatou-se a perspectiva da mesma fonte a partir do portão de acesso, que estava completamente obstruída por um grande bambuzal no canteiro central.



Foto 12: Plantio de Palmeira Imperiais ao longo do terraço de acordo com o projeto de Glaziou no local onde foram encontradasresquicios arqueológicos de  parte da construção do Teatro Cassino.


 Foto 13: bambuzal no centro do parque que obstruía a amplidão do parque e obstruía a visão da Fonte do Jacaré - 2002


Foto 14: área central do parque sem o bambuzal conforme projeto paisagístico de Glaziou - 2005

A restauração do jardim recuperou o uso do Passeio Público pela sociedade, como um espaço amplo e limpo com recantos.

Foto15: Recanto de rocailles onde a Glaziou introduziu elevação e pedras decorativas no parque.

Os elementos decorativos do parque estavam em evidente degradação, incluindo suas esculturas, pontes, guarda-corpos, postes, lagos, bustos, o portão do Mestre Valentim e a Fonte do Jacaré. Por conta disso, foram convocados vários profissionais especializados no tratamento de diversos materiais. Diferentes equipes trabalharam simultaneamente, limpando, decapando, modelando, fundindo e lavando as muitas peças do acervo escultórico do parque.



 Foto 16: Limpeza e tratamento do pedestal de pedra sabão do Monumento a Castro Alves

Foto 17: Limpeza e tratamento dos postes em ferro fundido

Foto 18: Execução de parte faltantes da bacia da Fonte do Jacaré

Durante as restaurações, alem de recuperar o projeto de Glaziou,  a grandeza da arte do Mestre Valentim foi recuperada, com a remoção das inúmeras camadas de tinta que se acumulavam sobre o ferro e o bronze do medalhão do Portão Monumental do parque, fundido no Rio de Janeiro em 1768. A peça havia sido retirada do Passeio Público em 1996, para a entrada de caminhões de limpeza, estando, desde então, sem o devido reconhecimento de sua importância para a cidade.

Foto 19.Frontão do portão Monumental guardado no depósito da Prefeitura de 1998 a 2004

Foto 20. Frontão no portão Monumental em 2004

Desde o ano de 2004, com o fim da restauração, a limpeza do Passeio Público tornou-se diária e a segurança passou a ser 24 horas. Contudo, ao longo dos anos, os serviços de poda das árvores, manutenção dos jardins e limpeza dos monumentos seguiram ineficientes. Furtos de balaústres e de pequenas peças de bronze, além dos danos à iluminação, evidenciavam a fragilidade do espaço e pronunciavam uma nova fase de decadência.
A conservação passou a ser a maior preocupação, devido aos danos causados pela ação do tempo e da utilização do bem patrimonial, que necessitariam ser amenizados através de medidas preventivas. Em 2009, quando assumiu no Rio de Janeiro uma nova gestão municipal, predominou o entendimento de que os parques, praças, ruas e avenidas da cidade necessitavam de conservação, não apenas de novas obras. Em 2010, a prefeitura organizou uma nova secretaria de governo para manter e revitalizar os espaços públicos, a Secretaria Municipal de Conservação e Serviços Públicos, passando a executar as novas intervenções urbanas, separada da antiga Secretaria de Obras.   Entretanto, o entendimento do conceito de “monumento vivo” ainda não é facilmente assimilado, representando um dos principais desafios para a manutenção.


Esse artigo foi publicado em Arqueologia na Paisagem: olhares sobre o jardim histórico/ Orgs. Jeanne Trindade, Carlos Terra - Rio de Janeiro: Rio Book's, 2014