quarta-feira, 3 de agosto de 2011

A Estátua da Liberdade de Vila Kennedy, em Bangu

Em Vila Kennedy, no bairro carioca de Senador Camará, existe uma Estátua da Liberdade esculpida pelo mesmo Frédéric Auguste Bartholdi que criou o famoso monumento norte-americano. Mais do que isso: há uma grande possibilidade de a estátua que está no Rio de Janeiro – feita em liga de níquel – ter sido feita a partir da peça original que serviu como modelo para aquele que é o mais importante cartão postal de Nova York.

Foi em 1865, aos 31 anos, que o importante escultor francês Bartholdi teve a ideia de criar uma estátua que representasse a liberdade. Até que, em 1870, veio ao encontro do seu desejo o fato de ter surgido em Paris a iniciativa da construção de um memorial que pudesse ser oferecido pela França aos Estados Unidos, como marco do sentimento de fraternidade existente entre os dois países. Com isso, Bartholdi projetou sua Liberdade. Assinaturas de apoio à construção da estátua foram colhidas por toda a França. Finalmente, em 1875, o artista iniciou a fabricação da peça definitiva, apresentada em 1878. A Estátua da Liberdade foi entregue ao governo americano em Paris, no dia 4 de julho de 1880, aniversário de 104 anos da independência dos EUA. Mas ela foi inaugurada somente em 28 de outubro de 1886, como uma dádiva conjunta dos povos francês e americano.


 A estátua que hoje se situa em Vila Kennedy, no bairro de Bangu, no Rio de Janeiro, foi uma encomenda a Bartholdi pela família Paranhos, em 1899, dez anos após a Proclamação da República do Brasil. Não se sabe quando exatamente a peça chegou ao país, mas é fato que ela foi instalada inicialmente na residência de família  Paranhos,  na Avenida Pasteur, 206, Rio de Janeiro. Trata-se de uma peça em zinco.

  
    
                                         
Entre 1879 e 1900, as Fundições Val d’Osne fabricaram diversas réplicas da estátua. Pelo que se sabe, muitas foram destruídas em 1944, quando a chamada Comissão de Metais não Ferrosos do governo francês decidiu fundir estátuas em bronze, em toda a França, para fabricar armas a serem usadas contra os alemães na Segunda Guerra Mundial. Assim, das Estátuas da Liberdade originais de metal, restaram apenas a brasileira e a de bronze que está nos Jardins do Luxemburgo, em Paris, até onde se tem notícia.


A existência hoje de uma peça historicamente composta por zinco no Rio de Janeiro sugere a hipótese de ela ter sido feita a partir da original construída por Bartholdi em 1875, apresentada como modelo de seu célebre projeto monumental.  Em 2014 na restauração da peça foi realizada uma analise química do material da escultura no INT ( Instituto Nacional de Tecnologia) que detectou a presença de 98% de zinco na composição.

Nossa Estátua da Liberdade deixou a casa da família Paranhos quando esta se desfez da propriedade. Não se sabe se a escultura foi doada ou vendida ao antigo Estado da Guanabara. O fato é que o então governador Carlos Lacerda procurava uma forma de homenagear os Estados Unidos, pelos recursos recebidos. Quando Lacerda soube da existência da estátua, abandonou a ideia de mandar fazer um busto de Abraham Lincoln, estimulado pelo antiquário Paulo Afonso de Carvalho Machado, que lhe garantiu a autenticidade da peça de Bartholdi.

A relação da estátua com o loteamento de Vila Kennedy, no bairro de Bangu, se iniciou quando a política de remoção de favelas tomou corpo, durante o governo de Carlos Lacerda, entre 1960 e 1965. No projeto original, a transferência dos moradores das favelas seria acompanhada de medidas de cunho social e da construção das casas populares. A verba usada para erguer essas casas na Vila Kennedy veio da Aliança para o Progresso, programa criado pelo então presidente americano John F. Kennedy. Daí o nome da vila, que a princípio se chamaria Vila Progresso, mas que acabou por receber o nome de Kennedy, morto em 1963, um ano antes da inauguração.

  Favela do esqueleto– atual UERJ

Vila Kennedy reuniu 5.509 unidades habitacionais compostas por duas glebas, onde uma população ex-favelada recebeu moradias com todos os requisitos necessários: água potável, luz elétrica, sistema de esgoto, ruas e praças, em um projeto audacioso de Lacerda. No final de seu governo, em 1965, a estátua de Bartholdi foi inaugurada como obra de arte pública na praça principal, chamada Miami, na principal via de acesso às residências, mantendo-se até hoje como referência dos moradores daquela comunidade.

 Vila Kennedy - 1963


 Placa original  




Em maio de 2014 a estatua foi restaurada. Veja o video: https://www.youtube.com/watch?v=ZywgEut2LQE&list=UUi-xnu-MrwnbKx5TnpKfwSQ

Caso alguma foto aqui inserida esteja em desacordo com os direitos de propriedade, sem a fonte e/ou legenda, por favor, envie correção para veradias2009@hotmail.com, ou se for o caso solicite a retirada.







16 comentários:

  1. Ler Vera Dias é: Conhecer a Historia Cultural do Rio de Janeiro.Interessante saber que a verba para a construção das casas sociais em Bangu, veio através do Programa criado pelo Presidente Kennedy.
    Parabéns pelo seu trabalho de conservação dos bens Culturais dessa Cidade Maravilhosa.
    Eu já tenho uma foto na Orignal em NYC,agora vou a Vila Kennedy visitar a nossa valiosa obra.

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  2. Márcia Martins Olimpio3 de agosto de 2011 23:29

    Que história interessante, Vera!
    Obrigada por publicar este surpreendente conjunto de informações. Parabéns pela pesquisa!

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  3. Vera, aqui em Maceió/Alagoas, também existe uma réplica da estátua da liberdade, na internet existem mais informações. um abraço.

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  4. Bom dia, Antonio.
    Poderia responder com o endereço e uma foto. Ajuda no cadastramento das peças de Val d Osne no mundo que esta sendo realizado pela Associação de Fundidores da França. Obrigada e abraços

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  5. Boa tarde professora Vera, sou jornalista em Maceió e estou fazendo uma matéria sobre a Estátua da Liberdade alagoana. Gostaria de conversar com a senhora sobre essa estátua do Rio. Por favor, me escreva dando os seus contatos: cultura@ojornal-al.com.br. Obrigada! Alessandra Vieira, do O JORNAL, em Alagoas.

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  6. Esta estátua é da família Paranhos porém ha um engano na referência - O endereço Av. Pasteur 206 era a casa de José Pereira da Rocha Paranhos, primo do Barão do Rio Branco. Os Pereira Paranhos - 12 irmãos - sendo que uma delas é minha avó Maria Feliciana Paranhos (de casada Brandão). Tenho fotos da casa cujo terreno se estendia onde hoje é parte do hangar do Iate Clube. Na ocasião da venda da casa um dos herdeiros fez uma 'troca' com o Governador Lacerda para a conseção da dragagem da Baia da Guanabara. Quanto a esta última informação, apenas conheço como uma historia de família.

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  7. Obrigada Regina Brandão pela contribuição. As informações sobre os monumentos publicos do Rio de Janeiro são sempre muito escassas e a passagem da estatua da propriedade privada para publica era uma das lacunas.

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  8. Muito interessante!
    Parabéns pela matéria bastante instrutiva!

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  9. Solicito efetuar a correção da historia - quem morava na Av. Pasteur onde esta estatua ficava na frente da casa era o Comendador José Pereira da Rocha Paranhos. Homem de ideias novas que fez a encomenda a Fundição Val d'Osne. O Comendador era primo do Barão do Rio Branco. Ou seja, a estátua nunca pertenceu ao Barão ou ao Visconde de Rio Branco. O restante eu já comentei acima. É triste que um comentario feito em abril/2012 não tenha sido levado em consideração e a correção feita. Eu posso verificar no inventario de herança do Comendador sobre o endereço, inclusive tenho fotos dos irmãos Paranhos que eram em numero de 12 pendurados na estátua na frente da casa. Alias, tenho também toda a árvore genealógica da família Paranhos, nascida em Portugal , na cidade do Porto e suas descendências. Sugiro também que esta estátua seja transferida para a frente do consulado americano no Rio de Janeiro a fim de preservá-la da destruição que está sendo acometida na favela. A última vez que vi esta maravilha já estava sem a tocha.

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  10. Em tempo: visitei a casa antes de ser demolida e esta, devido a demora do inventário tinha virado uma 'cabeça de porco'. A estátua ainda se encontrava lá. Sou testemunha viva do assunto. Logo após, um dos Paranhos negociou com o estado a sua transferência para a comunidade da Vila Kennedy

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  11. Regina, obrigada novamente por escrever e seu interesse em relatar a historia. Seria interessante a publicação da foto com os irmãos Paranhos na frente da estátua. Não conheço nenhum registro fotografico que apresente esse periodo na Avenida Pasteur.

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  12. Regina Brandão, é preciso se informar antes de dizer tais coisas.
    Sou morador da Vila Kennedy e digo que a estátua está conservada. Inclusive com a tocha. De tempos em tempos é limpa para tirar os efeitos da oxidação.
    Hj encontra-se cercada para evitar possíveis danos.
    Quanto à citação de remover a estátua, nem vou me pronunciar sobre isso.

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  13. Regina Brandão, primeiro de tudo acho que você deveria respeitar o local onde encontra-se a estátua, aqui é uma favela mas aqui não tem bichos como você sugere ter, tenha mais respeito com a comunidade da Vila Kennedy, a Estátua esta aqui a 49 anos e com a ajuda dos moradores e pessoas de bem tem o trabalho de cuidar do monumento... Engula suas palavras antes de falar da Vila Kennedy, você pode conhecer o nome mas não conhece a nossa história!!! Estátua da Liberdade seu lugar é na Vila Kennedy!

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  14. Sei do carinho que os moradores de Vila Kennedy tem com a estatua da Liberdade, que sempre estão atentos pela sua preservação. Poucas vezes a vi pichada ou soube que foi danificada, mas devido ao tempo de exposição precisa ser restaurada. Por esse motivo, existe uma constante divulgação que ela se encontra muito danificada e abandonada. Em breve será restaurada para alegria dos moradores de Vila Kennedy.

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  15. É uma grande surpresa, saber que existe uma réplica da estatua da Liberdade no Rio de Janeiro, construída pelo escultor Bartholdi. Após minha 3ª viagem ao Rio, estou cada vez mais interessado pelos tesouros, ainda a serem descobertos pelos turistas e moradores. Concordo com a permanência da estatua no local, mas é necessário que se tenha informação e acesso para visitas, assim como conhecer a estação, o teatro do bairro Marechal Hermes, que descobri recentemente e estou impressionado com a história daquele bairro. Parabéns Vera Dias pelo seu trabalho minucioso de nos detalhar trechos de uma cidade incrível.

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