domingo, 5 de dezembro de 2010

Nossa Senhora da Imaculada Conceição – Escultura que virou uma lenda urbana.

Quando se fala que o Rio de Janeiro é um museu a céu aberto, devemos considerar isso como um fato. A escultura de Nossa Senhora da Conceição que está no Largo do Machado, por exemplo, é uma das mais importantes relíquias da cidade, tombada pelo DGPC pelo Decreto 25693 de 23/08/2005.                                        
                                     
                                    
     
A estátua foi inaugurada em 8 de dezembro de 1954, dia em que a Igreja Católica comemorou o centenário da promulgação do dogma da Imaculada Conceição de Nossa Senhora. Ou seja: o dogma de que a Mãe de Deus concebeu sem a mancha do pecado original, promulgado pelo Papa Pio IX em 1854. Quatro anos após a proclamação do dogma, Maria Santíssima apareceu a Bernadette Soubirous, na cidade francesa de Lourdes, dizendo: “Eu sou a Imaculada Conceição”. Assim, a imagem é representada por Nossa Senhora sobre o globo terrestre, com os pés a esmagar uma cobra, símbolo do pecado original.


                                 
                         
Coube a Dom Jaime Câmara doar a peça ao Rio de Janeiro. A história dessa doação é interessante e está registrada em seu diário. Ela começa no dia 12 de novembro de 1954, quando D. Jaime foi ao Largo do Machado para um segundo encontro com o secretário da Viação e Obras da Prefeitura (Dr. Jorge), o diretor de Parques e Jardins e o professor Edgar Fonseca, da Pontifícia Universidade Católica (PUC), para estudar a construção do monumento a Nossa Senhora, aprovada pelo cardeal.

D. Jaime resolvera aproveitar a estátua da Virgem que estava no Palácio São Joaquim. Ela era criação do escultor genovês Antonio Canova, adquirida por Dom Joaquim Arcoverde Cavalcanti em uma de suas viagens à Europa, por conta da construção do palácio, que abrigava o Ministério do Exterior da Primeira República. A intenção era comemorar com solenidade o centenário da promulgação do dogma da Imaculada Conceição da Virgem Maria. Para isso, não haveria marco melhor que um monumento na praça em frente a uma igreja tão conhecida, a matriz das Laranjeiras.


Em dezembro de 2015 o pesquisador Ivo Korytowski enviou a seguinte informação: " Ampliei a foto no meu computador e vi que se trata de "G NAVONE GENOVA 1907". Ou seja, a estátua não é realmente do Canova, infelizmente, e sim do escultor genovês Giuseppe Navone, bem menos famoso que o Canova, mas agraciado mesmo assim com um verbete na Wikipedia, em italiano, em: https://it.wikipedia.org/wiki/Giuseppe_Navone. Ou seja, não é um joão-ninguém. A versão de que a estátua é do Canova seria mais uma dessas lendas urbanas que acabam virando "realidade", 

                                      

No entanto, levar a escultura do palácio para o Largo do Machado foi um enorme desafio. Como fazê-lo sem danificar aquela preciosa imagem de mármore, dotada de braços e dedos delicados? Uma firma cobrou 30.000 para fazer o transporte, preço considerado exagerado. Uma outra pediu 50.000!

Procurou-se por socorro no Cais do Porto. Lá, o Dr. Francisco Gallotti manifestou boa vontade, mas ele não tinha um guindaste adequado para um ambiente pequeno como o jardim do Palácio São Joaquim.

No dia 2 de dezembro, ainda não havia quem fizesse o serviço. Apenas conseguiu-se que a Marmoraria Santo Cristo apressasse o revestimento do pedestal do monumento. Mesmo assim, no dia 30 de novembro, D. Jaime fora ao Catete fazer uma visita ao presidente Café Filho, para convidá-lo à inauguração da peça.

Felizmente encontrou-se a tempo uma solução para o transporte da estátua. Seriam feitas duas torres no Palácio São Joaquim, uma de ferro e outra de madeira, que seriam depois levadas ao Largo do Machado, tão logo se conseguisse descer a imagem de seu pedestal nos jardins do palácio.

Então, a imagem foi transportada para o Largo do Machado, onde os marmoristas da Companhia Santo Cristo estavam trabalhando dia e noite. Em 8 de dezembro, D. Jaime foi ao local acompanhar as obras. A imagem já estava no pedestal, mas os operários caíam de sono – alguns trabalhavam havia quase 30 horas seguidas. Dr. Alberto Carlos Del Castilho pediu que se fizesse de tudo para atrasar a cerimônia por uma hora, pois faltava desarmar ambas as torres de ferro e de madeira, que os auxiliaram a suspender a imagem. Então, o Presidente foi avisado de que a cerimônia seria às 17h.

A hora se aproximava e os operários, ao desarmar a última torre, simplesmente atiravam tudo abaixo para ser recolhido pelos outros. Apenas deu tempo de abrir as placas de bronze com a bandeira pontifícia e a brasileira, pois o presidente Café Filho estava chegando.

No dia seguinte, 9, foi realizada na Catedral uma missa de graças à firma Severo e Villares, para agradecer pelo empenho de seus diretores, engenheiros e operários, que em apenas duas semanas realizaram a proeza de construir e transportar, com meios quase primitivos, o monumento que agora embelezava o Largo do Machado.

A sinceridade de D. Jaime e a beleza da peça merecem este registro.






3 comentários:

  1. Hj eu conheci o Largo do Machado, e uma das atrações maislindas é o monumento a Nossa Senhora da Conceição. Ver os detalhes da obra e ainda a sua história, que é emocionante, foi sensacional. Obrigado.

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  2. Cara Vera, como sempre muito interessante e útil o seu blog. Eu já lera sobre a escultura que se encontra no Largo do Machado, mas acredito que não se trate de obra do famoso escultor neoclássico italiano Antonio Canova, sobre o qual o blog apresenta dos vídeos do youtube.

    Minha dúvida começa pelo fato de que Antonio Canova não era genovês, conforme afirmado, mas sim nascido no Vêneto. Ele faleceu em 1822, décadas antes, portanto, da promulgação do dogma da Imaculada Conceição de Nossa Senhora (1854), que seria a motivadora da obra.

    Além disso, as obras conhecidas de Canova, certamente o escultor mais importante do Neoclassicismo italiano, estão abrigadas em museus internacionais, sempre em recinto fechado, como o Louvre, o Hermitage e a Galleria Borghese de Roma. Acho difícil crer que uma obra original de Canova estaria exposta à ação do tempo, no Rio de Janeiro.

    Acredito que, se não se tratar de um homônimo de Antonio Canova, a obra deve ser uma cópia. Haveria um original de Canova no Palácio São Joaquim? Só isso já seria uma notícia espetacular. Mas não creio, sinceramente. Aliás, na foto do blog aparece uma data (da escultura?) de 1907, quase um século após a morte de Antonio Canova.

    Isso não retira, evidentemente, nada do interesse de sabermos mais sobre esse e outros munumentos da cidade do Rio de Janeiro. Mas seria interessante esclarecer ou retificar uma informação que conts bastante disseminada pela internet, e que me parece, salvo engano, incorreta.

    Com um abraço e os meus parabéns pelo blog.

    (Helion)

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  3. Obrigada Helion pelo comentário, suas observações são oportunas. Vou incentivar a pesquisa. Abraços.

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