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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Campo de Santana: o nome desde sua origem

O Campo de Santana é um dos espaços livres mais tradicionais da cidade do Rio de Janeiro. No século XVII, era chamado de Campo da Cidade e fazia parte de um grande descampado, cuja extensão compreendia a Rua da Vala (atual Uruguaiana) até o Caminho de Capueruçu. No final daquele século, passou a se chamar Campo de São Domingos, porque a Ordem Dominicana obteve autorização para construir ali um templo.

Somente em 1753 a região onde hoje existe o Campo de Santana passou a ser assim denominada porque, com o surgimento das primeiras chácaras, foi construída ali a igreja dedicada a Nossa Senhora de Santana.

A partir de 1790, o vice-rei conde de Rezende, D. José Luís de Castro, iniciou ali a expansão da cidade. Pantanosa, a área se encontrava aterrada, porque a população a usava para depositar seu lixo e entulho.

Com a chegada da corte portuguesa, em 1808, o entorno do campo passou a ser densamente ocupado por chácaras. A decisão de D. João de construir ali de um quartel para tropas transformou a área em local de manobras militares. Três anos depois, por um Alvará Régio, estabeleceu-se um incentivo fiscal para a ocupação urbanística do Campo de Santana, o que estimulou aos poucos a construção de residências.

Em 1815, o intendente Paulo Fernandes construiu ali um pequeno jardim de amoreiras, no lado oposto ao quartel, com o objetivo de cultivar casulos do bicho-da-seda. Segundo descrições da época, o jardim de amoreiras era quadrangular, cercado com gradeamento de madeira fixo em pilares de tijolos e ocupava um terço da área. Esse jardim marcou o início de uma nova época para o lugar, que desde então passou a ser palco dos acontecimentos do Império.

Em 1817, o Campo de Santana mudou de nome – passou a se chamar Praça dos Curros, porque passou a abrigar uma arquibancada para touradas.

                                    
Thomas Ender - Biblioteca Nacional - 1817

Em outubro de 1818, ali ocorreram as comemorações do casamento do príncipe real D. Pedro com a arquiduquesa da Austria, Maria Leopoldina. Foi construído um pavilhão projetado por Grandjean de Montigny, ocorrendo uma grande festa pública, com música e carros alegóricos. Nesse mesmo ano, próximo ao quartel, foi inaugurado um chafariz, abastecido pelas águas do Rio Andaraí, com 22 bicas. Durante o dia, as lavadeiras se utilizavam de seu tanque e, nas noites de calor, a população se banhava. Nessa época, a área passou a ser conhecida popularmente como Campo das Lavadeiras.

Campo de Santana - Igreja de Santana - sem data

A partir de 1822, o campo passou a ser o centro político da cidade, após os eventos decorrentes do Dia do Fico, em 9 de janeiro, quando o príncipe D. Pedro conclamou a população do Rio, ali reunida às pressas, a que o defendessem dos soldados portugueses comandados pelo general Jorge de Ávilez, que queriam embarcá-lo à força para Portugal. Como a tenacidade do povo carioca conseguiu impedir a partida de D. Pedro, o logradouro passou a ser denominado Campo da Honra.

No dia 12 de outubro de 1822, D. Pedro I foi ali aclamado Imperador do Brasil pela população. Para a festa da Aclamação, segundo descrições da época, o jardim de Paulo Fernandes ganhou novos contornos e ornamentos: foram plantadas quatrocentas palmeiras; no centro do passeio, foi construída uma praça circular com 16 estátuas de madeira de deuses e semideuses, em cujo centro se encontrava um tanque com cascata artificial, ornada por conchas, com um repuxo bem alto. Diversos caminhos se originavam na praça, ornamentados com bustos de heróis e heroínas greco-romanas. Durante a festa da Aclamação, o lugar passou a se chamar Campo da Aclamação (de 1822 a 1889).

Campo de Santana - Franz Josef Fruhbech 1820


Em abril de 1831, o campo foi palco da rebelião dos batalhões estrangeiros que serviam ao Exército Brasileiro, fato que levou à abdicação de D. Pedro I. No ano seguinte, o Partido Restaurador, que defendia a volta de D. Pedro I, tomava as ofensivas no mesmo local. Com isso, o Campo da Aclamação, ainda popularmente conhecido como Campo de Santana, voltou a ser chamado de Campo da Honra. O nome, embora não tenha sido oficializado, prevaleceu até a coroação de D. Pedro II, apesar de os partidários da Regência terem decidido denominá-lo Campo da Redenção, enquanto uma minoria entusiasta o chamava de Campo da Liberdade.

                                     
Campo de Santana 1851 desenho de Jose Reis Carvalho

Na segunda metade do século XIX, foi construída nas proximidades do campo uma capelinha para São Jorge, por quem os militares que ali serviam tinham uma devoção especial.

Em 1853, o campo foi beneficiado com serviço de aterro e com o plantio de algumas árvores, trabalho que foi feito por 20 sentenciados militares, presos da Fortaleza de Santa Cruz. A seguir, em 1858, com a construção da Estação da Estrada de Ferro, no local da primitiva Igreja de Santana, o movimento na área aumentou consideravelmente, transformando-se em passagem obrigatória para todos os que utilizavam o transporte ferroviário, apesar de a demolição da igreja ter marcado o fim das festividades religiosas que por muitos anos animaram o campo.

Campo de Santana - 1860


                                     
Campo de Santana - Castro Y Ordones - 1862

Em 1870, D. Pedro II mandou construir no campo um pavilhão de madeira, para celebrar a missa comemorativa da vitória da Guerra do Paraguai. Naquele mesmo ano, o naturalista francês Auguste François Marie Glaziou e o estudioso de assuntos de jardinagem José Francisco Fialho apresentaram à municipalidade um plano para o ajardinamento do campo. Em 3 de julho de 1871, a Câmara municipal aprovou o projeto e Glaziou assumiu sozinho a responsabilidade pelo empreendimento.

                                       
Campo de Santana - festa do fim da Guerra do Paraguai

Campo de Santana - Templo da Vitoria 1870 Leuzinger

Em 2 de janeiro de 1873, finalmente foi assinado um contrato com o paisagista e, em fevereiro, foram iniciadas as obras. Com a presença do imperador, o jardim foi solenemente inaugurado em 7 de setembro de 1880, Dia da Independência. Na ocasião, Glaziou recebeu das mãos do barão Homem de Mello, ministro do Império, o decreto de véspera pelo qual fora agraciado com o grau de comendador da Ordem de Cristo.

Glaziou cercou o campo com grades de ferro de desenho artístico. O parque passou a ser cruzado por numerosos e largos caminhos, cobertos de areia fina. Por todo o gramado, espalharam-se lindas árvores, arbustos e pequenos lagos. Canais corriam em várias direções, atravessados por pontes e ornados com ilhas de pedras e vegetação exótica, além de tritões de bronze com repuxos d’água. De um rochedo – cujo interior abrigava uma caverna – brotava uma cachoeira.

Foto: Malta sem data


No dia 15 de novembro de 1889, o marechal Deodoro da Fonseca, diante das tropas concentradas no quartel-general, no Campo de Santana, proclamou a República, pondo fim à monarquia. Assim o campo passou oficialmente a denominar-se Praça da República.

Campo de Santana - Proclamação da Republica

Durante a gestão do prefeito Pereira Passos, de 1906 a 1910, o Campo de Santana sofreu algumas alterações, marcadas principalmente pela construção da sede da Inspetoria de Mattas, Jardins, Caça e Pesca, projeto de Leon Gaulbert, em 1909.


                                       
Campo de Santana - anos 20

Em 1917, o local foi reconhecido e denominado oficialmente pelo decreto nº 1165 de 31 de outubro como Campo de Santana.

Em 1934, pelo decreto nº 4786 de 21 de maio, o parque foi desmembrado das ruas de contorno, passando a denominar-se Parque Júlio de Noronha. As ruas que o contornam ficaram com o nome de Praça da República.

Em 1939, pelo decreto nº 9876 de 25 de agosto, o Parque Júlio Furtado voltou a se chamar Praça da República, reincorporando as ruas do entorno.

O parque tinha uma superfície de 142.421m2, mas foi mutilado com a abertura da Avenida Presidente Vargas. Para tal redução e adaptação, foi chamado o arquiteto José da Silva Azevedo Neto, já no governo do prefeito Henrique Dodsworth. Com isso, em 1941, a área do campo ficou reduzida a meros 18.216m2.

Em 1938, os gradis foram retirados e transferidos para outros parques. Inicialmente, foram depositadas embaixo do galpão do Campo de São Cristóvão e, depois, para debaixo da ponte da linha férrea em São Cristóvão. Posteriormente, foram movidos para o depósito do viveiro do Caju. Por fim, tiveram suas partes doadas a entidades oficiais, a obras do Departamento de Parques e a particulares, como cortesia.


Anos 40 a 50  Foto: Gilson Costa.

Em 1956, foram efetuadas obras de asfaltamento dos caminhos do parque. Os canteiros foram reformados e delimitados por um meio-fio de concreto. Redes de irrigação foram instaladas pela empresa L Quatroni SA, sendo inauguradas em 25 de março de 1958 pelo prefeito Negrão de Lima.

Em 1964, em virtude do golpe militar do dia 31 de março, o campo foi tomado por militares, que nele permaneceram entrincheirados durante nove dias, para emboscar os jovens estudantes da Faculdade Nacional de Direito (atual Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, localizada no prédio do antigo Senado), que ali permaneceram em resistência ao golpe. Naqueles dias, o parque foi cenário de tristes e sangrentos momentos da história nacional.

Finalmente, em 1965, pela Lei nº 575 de 13 de agosto, o parque voltou oficialmente a se chamar Campo de Santana, ficando as ruas do contorno com o nome de Praça da Republica.

Em 1967, o parque voltou a ter gradis, com projeto dos arquitetos Renato Primavera e Walter Curvelo de Mendonça, executado pela firma Ytanema Comércio e Engenharia SA.

Em 1968, pelo reconhecimento de seu valor histórico e artístico, o Campo de Santana foi tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural – INEPAC, órgão de preservação estadual, e desde 1983 integra uma das áreas do centro da cidade definidas pelo decreto municipal nº 4.141 como Zona Especial do Corredor Cultural.

                                                   
Campo de Santana - Albero Jacob 1996