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sábado, 14 de agosto de 2010

Chafariz das Saracuras - as muitas fases de uma obra pública

O Chafariz das Saracuras foi uma encomenda das freiras clarissas ao Mestre Valentim, para o abastecimento de água encanada no Convento da Ajuda, de propriedade dessa ordem religiosa, a partir das águas do chafariz da Carioca.

O convento, erguido em 1748 pelo engenheiro brigadeiro Alpoim, ocupava uma grande área do Centro do Rio de Janeiro, entre a Rua dos Borbonos e a Rua da Ajuda, onde hoje se situa a Praça Marechal Floriano, conhecida como Cinelândia. Seu chafariz foi construído em 1795 no pátio interno do edifício, para o uso das freiras. Porém, em seu livro “Terra Carioca – Fontes e Chafarizes”, de 1935, Magalhães Corrêa informa uma data diferente para a obra – as freiras o teriam construído em 1799, com uma placa de mármore que registrava sua gratidão ao quinto vice-rei, Dom José Luiz de Castro, e ao Conde de Resende, por lhes ter concedido um segundo registro d’água.

              
Com a demolição do Convento da Ajuda, para a abertura da Avenida Rio Branco, onde se encontram as edificações da atual Cinelândia, o chafariz foi doado à Prefeitura, em dezembro de 1911, pelo Cardeal Joaquim Arcoverde. Datam dessa época os primeiros casos de furto das saracuras e tartarugas que adornam a fonte, como documenta Magalhães Corrêa em “Terra Carioca – Fontes e Chafarizes”:


"Demolido o Convento da Ajuda, foi o chafariz desmontado e oferecido a Municipalidade, que o colocou no centro da Praça General Osório, e sobre o cilindro que pousa a pirâmide do chafariz, esta uma placa de bronze, em que se lê o seguinte: 

‘este chafariz doada a Municipalidade pelo Exmo Sr cardeal Arcebispo D Joaquim Arcoverde, foi removido do convento da ajuda para este local em dezembro de 1911, sendo prefeito do Distrito Federal o sr. General Bento Ribeiro’. 

Com carinho tratou esse prefeito o chafariz, há dezenove anos, mas hoje esta tudo mudado; as saracuras que eram quatro, uma foi roubada e as outras, para não o serem, foram recolhidas ao deposito da Inspetoria Matas e Jardins pelo Sr. Viana. Dos quatro cagados de bronze, dois lá estão, um foi roubado por um jovem, filho de distinta família que mora a rua Visconde Silva e que prometera ao guarda restituir, mas ate hoje não apareceu para devolver aquilo que levianamente se apossou, o quarto esta no abrigo do encarregado do jardim, agarrado a sua base de pedra, sob a manga de irrigação, pois parece que ate a pedra em forma de meia lua, pesando uns setenta quilos, com o cagado encrustado, ia também para algum recanto colonial. 

A taça de pedra, que se acha ao centro do chafariz esta cheia, não do precioso liquido, mas de areia, posta pela Saúde Publica para evitar mosquitos, processo pratico da teoria do menor esforço. 

Abandonada, apareceu espoliada de seus bronzes de um século de existência, entregue a guarda do povo de Copacabana, bairro de elite, mas nem assim escapou aos vândalos... Talvez por falta de vigilância municipal ou por falta de policiamento.”


O chafariz é lavrado em gnaisse, com elementos decorativos – as bicas – com função utilitária e ornamental, em forma do pássaro saracura e de tartaruga, esculturas típicas do Mestre Valentim, que sempre privilegiava os animais da fauna carioca.

Sua planta de forma circular possui quatro tanques, que se alternam simetricamente com quatro escadarias de quatro degraus.
                                                

No patamar elevado, ergue-se uma taça, sobre cujo pedestal em seção circular se assenta uma pirâmide, outro elemento característico de Valentim, com uma cruz no seu topo, lembrando sua origem religiosa.


A partir da instalação na praça, o chafariz passou a fazer parte do patrimônio dos cariocas. Na nova localização, ganhou destaque na paisagem da cidade.

                                                                                                                                                        Anos de 1920

Da década de 1920 até os anos 1960, poucas informações foram encontradas sobre o chafariz, mas é sabido que a instalação da feira hippie, em 1968, movimentou a praça. A presença de artistas, escultores, pintores e artesões ali ao longo de 42 anos reafirmou o local como um espaço sagrado da arte ao ar livre, sob a benção da obra barroca do Mestre Valentim.

           foto da década de 60

No início dos anos 1980, algumas modificações devem ter ocorrido na praça. Na foto a seguir, nota-se um lago que provavelmente foi construído para proteger o chafariz. Nessa época, há relatos de que as bicas de onde jorravam a água, isto é, as saracuras e as tartarugas, passaram a ser de bronze, substituindo as originais de chumbo. Na realidade, é difícil reconhecer a diferença entre os metais.


           

Em 1888, o governador Moreira Franco iniciou as obras do Metrô, instalando na praça um canteiro de obras, logo interrompidas por falta de verba. Nessa ocasião, foram instaladas grades em torno do lago já existente.

A paralisação da obra causou uma série de transtornos à vizinhança, situação que perdurou até 1994, quando finalmente foram recuperados a praça e o chafariz.

Como a limpeza da água de um lago exige manutenção constante, a solução encontrada na época foi enchê-lo de pedras de mão. Assim, em 1998, ocorreu o furto das tartarugas e das saracuras. O lago de pedras passou a ser alvo de críticas, devido à quantidade de lixo, ratos e restos de furtos que acumulava.
                                   
 1998

Em 2000, outra intervenção acontece. São instaladas novas réplicas das peças de bronze do chafariz, novos jorros no lago e refletores externos para inibir furtos

 Anos de 2000
                                   
Em 2004, mais uma intervenção: através de um adotante, é instalado um deque sobre o lago, com o intuito de facilitar a aproximação à obra do Mestre Valentim.


O ano de 2006 registra novo furto das peças de bronze. Com as dificuldades de manutenção do funcionamento do chafariz, a obra cai outra vez em uma fase de degradação.
 
                                 

Nova iniciativa de recuperação ocorre em 2008, por conta da retomada das obras do Metrô, que ocupam parte da praça. É realizada a restauração do chafariz, desta vez se detendo na recuperação dos blocos de gnaisse, na limpeza das partes de lioz e no tratamento dos rejuntes, além da instalação de novas saracuras e tartarugas.




E assim a história continua. Em 2009, são furtadas duas saracuras e, por problemas técnicos, o chafariz para de funcionar. Em 2010 foram furtadas outras duas.

Hoje, no momento em que escrevo esta postagem, estamos com o chafariz funcionando, apesar da ausência de duas saracuras, mas com os problemas técnicos superados. Desta vez, com o relato das diversas fases que esse monumento carioca já atravessou. Em 21 de dezembro de 2011, foram instaladas novas saracuras completando o conjunto.

Atualizando as informações, no dia 28 de agosto de 2013 as peças foram furtadas, permanecendo até maio de 2017 sem nova reposição.


Esse chafariz foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) no Livro das Belas Artes – Volume I, no processo nº 99-T-38, e no Livro Histórico, em 30 de junho de 1938, para manter às gerações futuras a história da cidade.

Veja: http://www.youtube.com/watch?v=WEq9Izavb0o