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sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A história das Fundições de Val D'Osne e a chegada ao Rio de Janeiro

A história das Fundições de Val D'Osne se inicia por volta de 1830, época em que o ferro fundido era a grande novidade da construção civil. Apesar de ser conhecido pelos chineses desde o século XIV, foi somente em 1779 que o material começou a ser usado na construção de pontes na Inglaterra. A França, por sua vez, começou a utilizá-lo no início do século XVIII

No artigo “As fundições artísticas: suas histórias e seus escultores”, reproduzido no site Fontes d’Art Rio de Janeiro, Elisabeth Robert-Dehault (site http://www.easyline.com.br/francis/fontrio/p3po_bas.htm, Obras de Arte em ferro fundido - Técnicas de Conservação e Restauro), expõe o seguinte histórico:

“Em 1833, Jean Pierre Victor André, administrador de forjas, decide lançar-se nesta aventura e, em 28 de outubro de 1834, solicita ao rei Luís-Felipe autorização para construir um alto-forno. Sua escolha recai curiosamente num local antigamente ocupado por um mosteiro, afastado da cidade e escondido no fundo de um vale: Val d'Osne. Naquela época, todas as usinas eram instaladas sobre cursos d’água de vazão regular e suficiente para provocar o giro das rodas d’água. O Osne é um riacho. Em compensação, minério de excelente qualidade abunda nas florestas próximas, bem como areia.

Autorizado por ordem real de 5 de abril de 1836 para construir sua usina, Jean Pierre Victor André começa pela edificação do alto-forno, ainda existente até hoje, e inicia rapidamente uma produção voltada para a fundição decorativa: ‘a fundição ornamental era desconhecida antes do senhor Victor André. Limitava-se à produção de tubos, placas e potes. O senhor André montou de ponta a ponta a indústria da fundição ornamental do ferro fundido’, escreverá em 1912 o cronista de Val d'Osne, abade Hubert Maréchal.

(...) André, no entanto, vivia em Paris e frequentava os escultores numa época em que a nasciturna revolução industrial atraía os criadores. Dentre os quais, Mathurin Moreau, autor de uma quantidade impressionante de modelos para Val d'Osne e que se tornaria um dos dirigentes dessa companhia.

(...) Junto aos maiores escultores do século XIX, ele permanecerá na origem deste matrimônio da arte com a indústria, que dará à fundição do ferro um extraordinário impulso, criando êmulos, aperfeiçoando novas técnicas e construindo uma obra que se tornará uma herança cultural para a Haute-Marne.

Barbezat monta um segundo alto-forno, amplia a usina e desenvolve a atividade com novos modelos. Para seus operários, cujo quadro se expande, ele constrói, em 1866, alojamentos cujos últimos locatários partiram em 1987.

Em 1867, Val d'Osne é comprada por Fourment e Houillé & Cia., que assegura uma administração competente até 1870, continuando a desenvolver a fundição artística.

De 1870 a 1892, Val d'Osne vive, sob a razão social ‘Société Anonyme des Fonderies d'Art du Val d'Osne’ (...)

Em 1895, Hanoteau transfere seus poderes de administrador-delegado a seu filho Henri, também egresso da Escola Central, que ainda trabalharia lá em 1912.

Em 1917, o registro das horas de trabalho dos operários indica que eles fabricam essencialmente granadas e obuses. A usina foi provavelmente requisitada pelo governo francês durante a tormentosa primeira guerra mundial.

Em 1931, a sociedade Durenne, fundada por outro grande fundidor artístico da Haute-Marne, em Sommevoire, adquire Val d'Osne. A empresa torna-se assim a Société Anonyme Durenne et du Val d'Osne. O administrador de Durenne reorienta a produção para peças mecânicas, suprimindo progressivamente a fundição artística.

Se a fundição de arte da Haute-Marne dominava o mercado até 1939, modelos em ferro fundido serão, após a guerra, muitas vezes refundidos em cubilôs (havia carência de matéria prima) e os modelos em gesso serão quebrados a marreta e jogados no lixo para dar lugar aos novos modelos. Somente os modelos religiosos escaparão, por respeito; o local onde eram estocados era chamado ‘o paraíso’.

Val d'Osne cerrou definitivamente suas portas em 1986, no momento em que suas produções do século passado ganhavam os museus e eram objeto de obstinados leilões no mercado de arte.”

Em 1851 é realizada a primeira “Exposição Universal”, em Londres, e a fundição artística começa a atrair muitos admiradores. As peças de Val D'Osne, a partir de então, passaram a ser vendidas em catálogos (com cerca de 700 estampas), onde desenhos dos modelos mostravam as dimensões das peças, em uma extraordinária variedade de produções, a maioria de artistas acadêmicos, neoclássicos, com excelente conhecimento em temas mitológicos, além de influências românticas, orientalistas, sensualistas e naturalistas.

A possibilidade da produção industrial do mobiliário urbano fez surgir diversos candelabros, bancos, grades e quiosques, que se espalharam pelo mundo inteiro. A fundição artística em série possibilitou a criação de obras de grandes artistas por um preço inferior.


                                                     


Perante essa modernidade, Pedro II, na Feira Internacional de Viena em 1878, comprou a nossa primeira obra francesa. Fundido em 1861, considerado um dos mais bonitos do mundo, o chafariz do Monroe chegou no mesmo ano no Brasil, sendo instalado primeiramente no Largo do Paço, atual Praça XV, no Rio de Janeiro, e lá permaneceu até início dos anos 1960, quando foi construída a Perimetral. De lá foi transferido para a Praça da Bandeira até que, em 1978, foi levado para sua atual localização, quando ganhou sua denominação atual, por ocupar o lugar do antigo prédio do Monroe, o Senado Brasileiro. Trata-se de uma obra com 12 metros de altura, o maior chafariz do Brasil e o único do gênero no Mundo.



A partir daí, muitos chafarizes franceses foram instalados na cidade, transcendendo a sua funcionalidade inicial de serem fontes de abastecimento de água. Por sua beleza estética e por se situarem em espaços públicos, fizeram o embelezamento da paisagem urbana. E assim, o Rio de Janeiro foi, no Brasil, o maior mercado dessas peças. Perto de 200 obras artísticas francesas de ferro fundido decoram a cidade, localizadas em prédios, parques e praças.

As histórias dessas peças – resultado do encontro do escultor com o fundidor – serão contadas nas postagens seguintes.