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segunda-feira, 17 de maio de 2010

Chafariz da Praça XV - Parte da história da Cidade


As sucessivas transformações urbanas ocorridas ao longo de três séculos em torno do chafariz da Praça XV, de autoria do Mestre Valentim e a persistência dessa construção no espaço urbano, demonstram a importância, inicialmente utilitária, dessa obra muitas vezes relegada e depreciada.

Em 1750 foi construído o primeiro chafariz na Praça XV.

Quando veio para o Brasil o Vice Rei Luis de Vasconcelos, em 1778, tinha em frente ao seu Palácio na Praça XV, um chafariz que era utilizado por escravos, aguadeiros e marinheiros. A cidade não tinha cais, os navios permaneciam ancorados distante da praia e os marinheiros vinham em pequenos barcos e caminhavam até esse chafariz com suas vasilhas.

Em 1789 o Vice Rei, a pretexto de mudar o chafariz do lugar, queixava-se que o mesmo atrapalhava as marchas militares e com a falta de conservação estava em ruína. Assim solicitava à corte autorização para a construção de um outro próximo ao cais para a chegada dos navios, o que foi concretizado em 1789.


                          


 “ Parada Militar do Largo do Paço” de Leandro Joaquim de 1789, retrata o novo chafariz e o novo cais em solenidade com os cavaleiros alinhados.


Anos mais tarde, nesse cais da Praça XV, às quatro horas da tarde do dia 8 de março de 1808, a família real desembarcou. Dom João desceu do navio Príncipe Real e passou para uma galeota e subiu as escadas do cais.

                                

 A aquarela de Richard Bates de 1808, apresenta duas escadas próximas ao chafariz e uma mureta.

Anos se passaram e o cais foi se deteriorando devido às ressacas e ao movimento de carga e descarga dos navios. Há relatos que D. João mandou recuperar, em 1817, a escada de acesso, ajardinar o lugar em painéis contornados por meios-fios de pedra dando impressão das marinhas.


A aquarela de Thomas Ender de 1817 retrata os escravos no entorno do Chafariz, recolhendo água, o cais com assentos e lampiões. Vê-se que a preocupação de D. Luis de Vasconcelos de afastar escravos foi seguida, sem uma bacia para acumular água, com o jorro para distribuição acima da altura dos aguadeiros. Observa-se também um desenho de piso que direciona as linhas para o chafariz.

                           

O registro de 1826, apresenta a movimentação de pessoas no Largo.


                                    

 A tela de Debret, de 1825, mostra que ali ocorria venda de mercadoria, um peitoril a beira mar e a presença de navios ancorados.

 A partir de 1849 já apresenta o transporte de mercadorias e o chafariz afastado e um aqueduto para abastecer os navios.



Com o assoreamento resultante dos detritos da cidade, os navios tiveram que se afastar, mas o chafariz se manteve como fonte de abastecimento através de um aqueduto improvisado, bem representado na aquarela de 1850.

Em 1857 construiu-se o segundo cais, o Cais Pharoux. O antigo piso da praça foi aterrado, elevando-se um metro, dividindo a praça em grandes triângulos, delimitados por granito e tendo centro preenchido por areia. Como o piso subiu, foram aterrados cinco degraus do acesso ao prédio do Paço e três degraus do chafariz diminuindo a dimensão do seu embasamento.

Entre 1859 e 1862 executaram-se novamente obras de reconstrução no cais devido às ressacas que exigiam constantes consertos.

                                           

Em 1865, aparece o chafariz e o piso em todo o largo.


Somente nesta foto de 1861 de Revert Henrique Klumb, aparece uma grande bacia no entorno do Chafariz da Praça XV, com lavadeiras utilizado-o como tanque. Ao lado do seculo XIX.

 

Na foto de 1889, de Georges Leuzinger, parece a praça sem a antiga movimentação e sem a bacia apresentada anteriormente.

                                        
 R. H. Klumbcerca de 1875


O chafariz do Mestre Valentim forneceu água provavelmente até os anos 80,do século XIX, quando o Aqueduto da Lapa tornou-se obsoleto. Este em 1896 foi transformado em viaduto para a circulação de bondes pela Companhia Ferril Carioca, passando o primeiro bonde elétrico a 1 de setembro.

A remodelação da Cidade promovida por Pereira Passos nos anos de 1902/06 também chegou à Praça XV. A foto revela o plantio de árvores e calçamento e o chafariz como um Monumento no meio do largo.



A partir desta data e com da construção posterior do Mercado Municipal e da Estações das Barcas, a Praça XV passa a ter grande movimentação.


A foto de 1928 mostra o chafariz seco, cercado por um gramado no nível da praça.

O cenário da Praça XV mudou novamente quando surgiu o Elevado da Perimetral, a construção de viadutos era sinônimo de crescimento. Essa obra começou no governo do Prefeito Negrão de Lima, impulsionado pelo trânsito de veículos na cidade e pelas transformações com o aparecimento dos arranha-céus.

Outra modificação ocorreu quando foi construido um lago no entorno do chafariz. A foto do arquivo da Fundação Parques e Jardins, mostra o lago e uma passagem de acesso para a porta principal ainda em madeira.


 Foto Jaime Klintowitzm de 24 de agosto de 1972, Arquivo Nacional, Fundo Correio da Manhã

O lago é confirmado pela foto de 1986 que mostra o seu abandono com detritos, no mesmo nível da praça.

                                    Arquivo GMC

De acordo com Olinio Coelho "o espelho dágua foi projeto de "mise-en-valeur, de minha autoria e equipe da então Divisão de Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Guanabara, aprovado pelo IPHAN. Esse projeto recebeu premiação - Hors-Coucours- do IAB, em 1970".

Em 1988 ocorreu outra iniciativa de recuperar o valor histórico do Chafariz do Mestre Valentim. A Prefeitura realizou uma pesquisa arqueológica na busca do antigo cais que foi palco de verdadeiros acontecimentos históricos. Envolveram-se nesse projeto arqueólogos, engenheiros, arquitetos e historiadores para descobrir o píer do antigo cais inaugurado em 1789.

O Jornal O Globo em 1988 noticia a descoberta dos degraus.
                                 
       

A partir desse resgaste, o chafariz passou a ter um novo lago somente na área frontal, a fim de permitir a visualização dos degraus de cantaria originais. Nas escavações observou-se o afloramento do lençol freático, que foi aproveitado para compor com essa exposição, a situação de quando o mar banhava o Chafariz da Praça XV. O trecho restante da área escavada foi gramado permitindo assim a dimensão do que foi o cais criado por Mestre Valentim.

Devido à diferença de nível, foi cercada na face frontal, entre a área escavada e o atual piso da praça o que permanece até hoje para garantir a segurança dos transeuntes. A foto de 1991 mostra o lago em frente ao chafariz.

 

Em 1994 iniciou-se a construção da primeira via subterrânea da Cidade, denominado pelos cariocas de " Mergulhão”. Essa obra visava atravessar a Praça XV num trecho de 200 metros a cerca de 5 metros abaixo do nível da praça e 2,5 metros abaixo do nível do mar, praticamente em frente ao chafariz do Mestre Valentim. Para tanto foram construídas quatro pistas para veículos e os ônibus foram transferidos para a via, onde possuía baia lateral para evitar os congestionamentos. Para acesso de pedestres à via, foi construída uma escadaria principal ao lado do chafariz e outra em frente à estação das barcas.




A foto de abril de 1998, registra ao lado do chafariz, o acesso ao mergulhão e os degraus descobertos em 1988.

 

Em 2016 com as reformas no Túnel Subterrâneo do Mergulhão com a construção do Túnel Marcelo Alencar, o acesso a pedestres e a ventilação existentes desapareceram. O trecho foi aterrado e criado um espaço verde, limitado por uma pequena murada, preservando expostas a antiga murada e os degraus de acesso ao mar.

   


Essa sucessão de fotos deixam claras a importância da obra de Valentim, que superou o uso demasiado da população para se abastecer de água, que deu condições para firmar a cidade, como um porto seguro e que passou a ser um elemento decorativo, com o fim de sua fonte natural e, principalmente, garantiu a esta obra de arte pública, uma referência artística e histórica da Cidade do Rio de Janeiro.




Veja a ficha cadastral:

http://www.inventariodosmonumentosrj.com.br/index.asp?iMENU=catalogo&iiCOD=211&iMONU=Chafariz%20do%20Mestre%20Valentim%20ou%20Chafariz%20da%20Pir%C3%A2mide